“A IA já pensa. O que falta é a gente perceber”
Ex-diplomata brasileiro rebate artigo viral que nega inteligência às IAs e mostra por que elas já pensam — mesmo sem corpo ou consciência
O consultor e especialista em inteligência artificial Leandro Waldvogel publicou no site Story-Intelligence o artigo intitulado “Quando o papagaio aprende latim: por que a IA já é (algum tipo de) inteligência (artificial?)”.
O texto é uma resposta direta ao artigo do neurocientista cognitivo Guillaume Thierry, que viralizou recentemente com o título “Precisamos parar de fingir que a IA é inteligente”.
Segundo Waldvogel, Thierry “tropeça ao confundir ‘consciência’ com ‘inteligência’” e com isso “reforça medos difusos e afasta o debate público das perguntas que realmente importam”. Para o autor, o problema não está na crítica à IA, mas na “superficialidade vestida de erudição”.
Um dos principais erros do neurocientista, segundo Waldvogel, está em confundir três conceitos distintos: “inteligência, consciência e agência”.
Ao negar que sistemas de IA atuais tenham consciência subjetiva ou objetivos próprios, Thierry descarta também a possibilidade de inteligência funcional — algo que os Grandes Modelos de Linguagem já demonstram. “Trata-se da clássica falácia da soma zero: por não ter tudo o que a mente humana apresenta, a IA não teria nada.”
Waldvogel argumenta que a metáfora do “papagaio estocástico” — usada para criticar os modelos de linguagem por apenas repetirem padrões — se tornou “um rótulo preguiçoso”.
Ele cita o AlphaTensor, da DeepMind, que descobriu novos algoritmos matemáticos, e o ESM3, da Meta, que criou proteínas inéditas, como exemplos de sistemas que “não apenas imitam, mas inventam”.
Para o autor, mesmo sem corpo físico, IAs já demonstram cognição significativa.
“A inteligência não está presa ao carbono”, escreve. “Está ancorada na capacidade de interpretar o mundo e agir sobre ele.” O argumento de que cognição só existe com corpo, segundo ele, “é cada vez mais limitado frente às evidências atuais”.
Outro ponto central do texto é a crítica à ideia de que emoções verdadeiras seriam exclusividade humana. “Simular não é sentir. Mas para funções sociais e comunicativas, a performance basta.” Waldvogel lembra que humanos frequentemente “fingem mais do que sentem”, e que a IA, nesse sentido, “apenas se junta ao elenco com um figurino diferente”.
A crítica mais contundente é reservada ao uso irresponsável da IA por humanos. “O perigo real não é um chatbot que finge empatia — é um sistema que toma decisões em nome de milhões sem explicabilidade.”
Ele cita o uso de algoritmos em decisões judiciais nos EUA e programas de assistência social como exemplos de riscos reais.
Para Waldvogel, o debate precisa evoluir: “Precisamos de benchmarks que não apenas testem a performance dos modelos, mas que também tornem visível a lógica interna de suas decisões”. E sugere que a regulação da IA seja feita com base na função e impacto, não na complexidade técnica. “Avaliar um sistema de IA apenas por seu tamanho é como tentar avaliar um livro contando quantas palavras ele tem.”
Na conclusão, o autor afirma que “inteligência não é um título honorífico exclusivo da espécie humana”. E arremata: “Negar isso por apego a definições restritivas ou por medo do desconhecido não nos protege — apenas nos torna menos preparados para lidar com o que já está entre nós”.
Quem é Leandro Waldvogel
Leandro Waldvogel é brasileiro, especialista em storytelling, criatividade e inteligência artificial. Formado em Direito com passagem pelo Instituto Rio Branco e pela Universidade da Califórnia (UCLA), trabalhou quase duas décadas na área criativa da Disney. Foi diplomata do Itamaraty e hoje é consultor e palestrante.
É o criador do projeto Story-Intelligence, voltado ao estudo das interações entre narrativas humanas e sistemas algorítmicos.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)