Rodolfo Borges na Crusoé: Os esconderijos do tempo no gramado
A melhor novidade no combalido futebol brasileiro são os subterfúgios adotados para que a bola role por mais tempo
“Quando se vê, já são 6 horas: há tempo… Quando se vê, já é 6ª-feira… Quando se vê, passaram 60 anos…”, escreveu Mario Quintana em Seiscentos e sessenta e seis, e eu completo: quando se vê, passaram-se 90 minutos e a bola não rolou nem pela metade desse tempo.
Há uma diferença abissal entre o futebol que se joga na Europa há alguns anos e o que se disputa na América do Sul. E isso não diz respeito apenas ao nível dos jogadores e dos times que entram em campo, mas às estratégias que os envolvidos usam para ganhar — ou não perder.
O elemento mais irritante do futebol sul-americano, para além da dificuldade de acertar o gol, é o tempo que se perde com simulações e estratagemas para atrasar o jogo. Um roçar de dedo do adversário no rosto pode levar a dramas dignos de Ibsen, no qual a vítima rola pelo chão desconsolada.
Gandulas
Surgiram no tão maltratado futebol brasileiro neste ano duas estratégias que ajudaram a tornar os jogos um pouco menos chatos. A ideia simples de posicionar bolas ao redor do campo passou a evitar que os gandulas participem de forma tão determinante das partidas.
Até o ano passado, aqueles que deviam retornar as bolas o mais rápido possível para o campo — muitas vezes homens feitos (ou desfeitos) em vez dos garotos que faziam esse serviço — sumiam (junto com as bolas) caso seu time precisasse ganhar alguns minutos ao fim do jogo.
Agora, o jogo depende apenas da pressa dos próprios jogadores — e quanto a isso não há muito o que fazer, a não ser puni-los…
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