Orlando Tosetto na Crusoé: República Nova
Uma das novidades que aí está tem sido perder não só o latim, mas também o português, a matemática, a geografia e, principalmente, a história
Ao que tudo indica, ainda vivemos sob os auspícios da Nova República.
Digo “ao que tudo indica” porque, no Brasil, até o que tudo indica pode ser outra coisa.
Outra República, por exemplo, não aquela que começou com a eleição indireta de Tancredo Neves e com a posse mais indireta ainda de José Sarney, em 1985 – há quarenta anos, portanto.
Mas digamos, digamos que ainda seja a mesma Nova República, ainda que quarentona, madurona. Lembro que, apesar dos seus pesares, dos seus começos não muito republicanos, ela chegou chegando, como se dizia na Academia de Platão.
Apareceu arregaçando mangas e saias e prometendo mãos à massa e à obra, louquinha para recuperar o tempo perdido. O tempo que a nós também parecia tão perdido.
Era nova a República, por mais velhos, até caducos, que fossem seus próceres e procedimentos.
Lá estava ela querendo pular amarelinha e dançar a cirandinha como se menina fosse, grinalda não digo de rosas, mas de girassóis nos cabelos.
Mas eis que bateu um vento e correram quarenta anos. Para ela e para mim: o advento maior da Nova República coincidiu com o advento menor da minha maioridade – fiz 18 anos em 1985.
Paralelo curioso com meu pai, que fez 18 anos em 1937, quando se inaugurou (verbo impreciso, mas é o que tem para hoje) o Estado Novo do Getúlio, primeiro pai dos pobres (está aí agora o segundo).
Ô família azarada a minha.
Enfim, o fato é que toda a minha vida adulta, mais comprida do que a vida inteira de um camponês medieval, ou de algumas vítimas de roubos de celulares, vem transcorrendo sob essa égide neorrepublicana.
Aliás, por que “Nova República” e não “República Nova”? Esse negócio de botar o adjetivo na frente do substantivo é sintaxe do inglês, não do português. Devíamos falar em Repúblicas Nova e Velha.
Senão daqui a pouco vamos falar em fritas batatas…
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