Jerônimo Teixeira na Crusoé: Antologia do desejo de morte na política brasileira
O discurso em que um deputado bolsonarista disse que queria ver Lula morto foi lamentável, mas não criminoso
Gilvan da Federal quer que Lula morra. Disse isso expressamente em discurso na Câmara, no dia 8, quando se discutia um projeto para desarmar a guarda presidencial.
“Quero que Lula vá pro quinto dos infernos”, acrescentou.
O relator do projeto calhava de ser justamente o deputado federal pelo PL do Espírito Santo – que lhe deu parecer favorável.
Se Lula é contra armar “o cidadão de bem”, argumentou Gilvan, ele deveria dispensar guarda-costas armados.
Ele só não percebeu que a lei não atinge apenas o atual presidente: seu sucessor, que pode até ser um bolsonarista favorável a liberar a venda de fuzis AR-15 no mercadinho da esquina, também ficará mais suscetível ao ataque de homens do mal portando metralhadoras, pistolas ou facas.
No dia seguinte, Gilvan da Federal (que tem essa alcunha porque é policial federal licenciado) ocupou a tribuna para se desculpar.
Um cristão, disse, jamais deve desejar a morte de uma pessoa. Esse louvável ato de contrição veio depois que a Advocacia-Geral da União solicitou que a PF investigasse os desejos de morte do deputado.
A diatribe de Gilvan é indigna do cargo que ele ocupa. No entanto, eu espero que o inquérito termine com o arquivamento do caso.
Não vejo nem incitação nem apologia ao crime nas declarações de Gilvan. Ele até fez questão de dizer que não quer matar Lula. Apenas deseja vê-lo morto – de causas naturais, presume-se.
Claro que nem tudo o que se pode legalmente dizer deve ser dito. Mas não quero entrar nessas considerações moralizantes.
Recorro ao caso apenas como pretexto para uma breve antologia do desejo de morte na política brasileira recente.
Os inimigos de Gil Vicente
A 29ª Bienal de São Paulo, em 2010, concedeu um razoável espaço no Pavilhão do Ibirapuera para uma série de obras do pernambucano Gil Vicente, intitulada “Inimigos”.
Eram desenhos em que o próprio artista aparecia executando figuras como a rainha Elizabeth II e o papa Bento XVI.
Criativo, Gil Vicente variava o método com que dava cabo de cada um de seus declarados inimigos.
Fernando Henrique Cardoso levava um tiro na cabeça…
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