Precisamos de mais ou de menos regras para viver?
Filósofo discute nossa obsessão por regras, leis e processos, e nosso desejo frustrado de justiça
Barry Lam, professor da Universidade da Califórnia em Riverside e apresentador do podcast Hi-Phi Nation, defende em seu novo livro, Fewer Rules, Better People (“Menos regras, Pessoas Melhores”), a tese de que quanto menos regras tivermos, melhores seremos como sociedade.
Segundo o autor, quando desconfiamos uns dos outros, exigimos mais leis que nos “protejam” mutuamente; e quanto mais brechas nessas leis forem encontradas (advogados estão aí pra isso!), mais complexas as leis se tornarão.
Resultado? Ainda mais desconfiança entre os indivíduos e as instituições.
A sociedade está cheia de boas intenções
Barry Lam explica que leis existem por uma boa razão – o desejo de justiça, que é inerente ao ser humano. No entanto, um desejo ainda maior vem à tona sempre que nos sentimos injustiçados: o de criar uma regra para eliminar qualquer risco de que isso aconteça.
O sistema criminal é um bom exemplo desse mecanismo. Se alguns juízes tomam decisões enviesadas ao liberar alguém sob fiança ou manter a pessoa em prisão preventiva, é preciso criar uma regra processual para evitar que esse tipo de injustiça seja cometido.
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A regra nem sempre é clara
Em seu livro, Lam arrisca uma tese controversa e afirma que, por mais arbitrária ou errática que a tomada de decisão humana possa ser, ela é ainda melhor do que depender de uma infinitude de leis criadas para melhorar nosso comportamento, pois muitas vezes elas geram o efeito contrário:
“Por um lado, as autoridades têm uma visão muito negativa das pessoas, achando que elas estão sempre tentando burlar o sistema e, por isso, criam regras cada vez mais complexas. Como resultado, a desconfiança passa a vir das pessoas, que pensam ‘Essas autoridades estão sempre querendo nos prejudicar e ficam inventando regras para tentar nos enganar’.”
Convenhamos, a Justiça nunca foi cega.
E se a gente pedisse para a IA decidir?
O filósofo argumenta que, entre o legalismo atual – de tratar todo mundo como um criminoso em potencial – e a possibilidade de deixar que as pessoas exerçam seu livre-arbítrio, deveria haver um meio-termo: “Parte do que nos torna humanos é usar nossa criatividade e nossa mente para intervir no mundo”.
Ele acredita que, apesar dos pesares, o processo de deliberação humana sempre será melhor do que um processo automatizado: “Ainda não temos a dimensão de quão vazio é um mundo no qual ninguém é julgado por outro seres humanos, apenas por algoritmos”.
Alguém se arrisca?
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