Orlando Tosetto Júnior na Crusoé: O batom como arma revolucionária
Débora foi proibida de falar com a imprensa, porque não é sempre que a democracia aguenta podcast ou entrevista
Passaram-se uns dias já, mas eu, como qualquer brasileiro são – somos raros, é verdade, mas existimos – ainda estou impressionado com o caso da cabeleireira Débora, a terrível terrorista do batom.
Atenção: do batom, não de batom.
Terrorista vaidosa tem em todo canto.
Ou o amigo acha que La Pasionaria, Rosa Luxemburgo, mamãe Mercader ou a própria companheira Wanda abririam mão de seus estojinhos de maquiagem?
Mas usar batom como arma revolucionária, só dona Débora.
Só ela, sim. E é produto legitimamente nacional.
Você fica aí falando mil maravilhas dos outros países, leitor, mas aposto que não é capaz de apontar nenhum outro que tenha uma terrorista do batom.
Uma pessoa que, armada apenas com sarcasmo e batom, represente risco real para uma democracia robusta e consolidada como a nossa e encha de apreensão seus valorosíssimos paladinos, tudo para pôr no lugar uma ditadura tão vermelha quanto um khmer, digo, quanto a cor do seu cosmético.
Não tem. Só aqui. Por essa e outras é que somos um país sui generis, meu querido leitor. Aliás, cada dia mais.
Aqui acontecem coisas e surgem gentes de que até nossas supremas cortes duvidam. É preciso agir, sim, senhor.
E se a mão que segura a pena pesa na dose da pena, é porque assim o exigem a educação pela exemplaridade e também o ditado popular, que reza: é melhor sobrar do que faltar.
Daí que deram 14 anos de prisão a dona Débora. Pelo terror com o batom.
Pela ameaça cosmética ao Estado de Direito (em respeitosas maiúsculas). Pelo golpe sabor – digamos – morango. Ou cereja.
Mas, para que não se continue a dizer que o leite da bondade humana não pinga dos peitos supremos, parece que resolveram deixar dona Débora cumprir seus 14 anos de pena em casa, na chamada prisão domiciliar.
Com tornozeleira eletrônica, para que ela não fuja de casa (sabe como é com esses golpistas).
E com proibição de falar com a imprensa, porque não é sempre que a democracia aguenta podcast ou entrevista de golpista. Especialmente se de batom.
Más línguas dizem, e maus dedos escrevem, que essa bondade só escorreu do supremo reservatório porque as pessoas se escandalizaram com o draconiano da pena.
Inesperado escândalo, mas escândalo sempre.
Aliás, dizem que o próprio Drácon baixou num centro espírita, dizendo: “Mas o que é isso?!? O que é isso?!?”. Não sei se acredito. Tá com cara de fake news.
Enfim, o fato é que a solução da pena-caseira-com-tornozeleira-mais-psiu-caluda estava ao alcance desde sempre, mas, talvez por distração das supremidades – gente ocupadíssima, convenhamos – passou esquecida até ser, homessa, lembrada.
Para alívio de dona Débora. Afinal, antes tarde do que mais tarde ou tarde demais.
E assim vemos como a banda toca e o ataque avança: com rigor e com amor.
Com dureza e compreensão.
Com severidade e piedade.
Mordendo (muito) e assoprando (um pouquinho).
Para que ninguém ponha defeito ou reparo.
Para não servir de pedra de tropeço ou ocasião de escândalo.
É assim que se educa a turba.
A gente castiga hoje as mamães terroristas de batom para não castigar amanhã as crianças terroristas de lancheira e lápis de cor.
Porque se a nossa democracia não aguenta um “perdeu, Mané” lavável, é claro que também não vai aguentar um desenho de um coelhinho cor-de-rosa roendo uma cenoura azul aos pés de Têmis.
Têmis que só é cega quando…
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Comentários (1)
Fabio B
06.04.2025 08:42Mas é sempre importante lembrar que o Batom dela queria um golpe de estado, uma ditadura com "Bolsonaro no Poder".