Shapiro: “Guerras comerciais não são boas nem fáceis de vencer”
O comentarista americano Ben Shapiro critica a nova política de tarifas dos Estados Unidos, desmonta mitos sobre a decadência industrial e pergunta: “Qual é o plano?”
O analista político americano Ben Shapiro publicou nesta quinta, 3, no site The Daily Wire, o artigo “Dia da Libertação. Qual é o plano?”, em que contesta a decisão do presidente Trump de decretar um novo feriado econômico e iniciar uma guerra tarifária.
Segundo ele, a medida se baseia numa visão errada da economia e numa “narrativa falsa de decadência” dos Estados Unidos.
O presidente, escreve Shapiro, “parece acreditar que o comércio internacional é um jogo de soma zero”, em que um país só ganha se o outro perder.
A nova política tarifária seria baseada na ideia de que a economia americana fracassou nas últimas quatro décadas. “Isso simplesmente não é verdade”, afirma. “É um mito que as pessoas gostam de acreditar – que ontem foi economicamente melhor que hoje.”
O jornalista usa exemplos do cotidiano para desmontar esse tipo de nostalgia: “Você realmente preferiria viver em 1980, quando o único com telefone celular era um executivo numa praia segurando uma caixa de sapato na cabeça?”, ironiza. “Os carros com vidros elétricos eram raridade. O ar-condicionado central era luxo.”
Sem negar possíveis crises morais, ele separa o debate: “Estamos falando de economia – da distribuição de bens e serviços. E nisso, os Estados Unidos têm ido bem por décadas.” Como prova, cita que o valor da produção industrial saltou de 1,4 trilhão de dólares em 1997 para 2,4 trilhões em 2025.
A queda no número de empregos industriais, segundo Shapiro, se deve ao avanço tecnológico: “Fabricamos mais porque temos robôs melhores.” E ironiza o saudosismo por empregos em fábricas: “Muita gente diz ‘por que não posso ter um trabalho como nos anos 1950?’ Trabalhar o dia inteiro apertando rebites em um galpão sem ar-condicionado provavelmente não é o que você realmente quer.”
A ideia de que o comércio internacional destruiu a classe média também é desmontada com números: “O que aconteceu foi que muitos passaram da classe média para a classe média alta.” De acordo com ele, houve um aumento de 16% no número de famílias nessa faixa entre 1980 e 2015. “Todos ficaram mais ricos — inclusive os pobres. O que um americano pobre pode consumir em 2025 é muito superior ao que consumia em 1980.”
Sobre os salários, Shapiro cita dados oficiais do governo americano e afirma que houve “um forte aumento entre 1980 e 2025”, desmentindo o discurso de estagnação repetido por políticos de diferentes partidos.
O ponto central do artigo é a crítica à ideia de que déficits comerciais são prejudiciais. “Tenho um enorme déficit comercial com o supermercado do meu bairro. Eles nunca compraram nada de mim. Mas eu recebo valor em troca – comida, produtos.” Ele insiste que déficits comerciais não dizem nada sobre a saúde de uma economia.
Ele cita o economista Thomas Sowell: “Se os bens e serviços disponíveis para os americanos aumentam graças ao comércio internacional, então os americanos estão mais ricos, não mais pobres.” E lembra que os Estados Unidos registraram superávit comercial durante a Grande Depressão: “Isso diz tudo.”
Shapiro também recorre ao francês Frédéric Bastiat para ilustrar o absurdo da obsessão com o equilíbrio comercial: “Se você tem tanto medo de desequilíbrio nas trocas, afunde seus navios com produtos antes que eles cheguem ao destino. Assim você exporta, mas não importa. Balança equilibrada. Economia arruinada.”
Para ele, falta clareza sobre os objetivos da nova política comercial: “Guerras comerciais não são boas nem fáceis de vencer — especialmente se você não tem um plano. É preciso ter um plano.” O colunista diz que o mercado reagiu com medo e confusão, o que gera “menos investimento, menos crescimento e menos empregos.”
O governo americano, escreve ele, divulgou um comunicado dizendo que as tarifas poderão ser suspensas se os parceiros comerciais mudarem seus comportamentos. “Outros países podem anunciar investimentos nos Estados Unidos, e o presidente ganha uma vitória simbólica. Pode ser esse o plano.”
Mas, por enquanto, o que Shapiro vê é “uma coleção de frases feitas, manchetes improvisadas e estatísticas escolhidas como se fossem coladas num quadro de avisos por uma inteligência artificial.” E pergunta: “Se é para pedir sacrifícios aos americanos, o que exatamente está do outro lado desse sacrifício? O que há de melhor e mais promissor que justifique tudo isso?”
Quem é Ben Shapiro
Ben Shapiro é jornalista, advogado e comentarista político americano.
Formado em direito pela Universidade Harvard, fundou o site The Daily Wire e se tornou uma das vozes mais influentes do conservadorismo nos Estados Unidos.
Autor de best-sellers, é conhecido por sua atuação no rádio, no YouTube e em debates públicos sobre política, economia e cultura.
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