Dennys Xavier na Crusoé: Os ungidos do Supremo e a usurpação das liberdades
Quando a toga se converte em púlpito, a função jurisdicional degenera em vanguardismo messiânico
“Os ungidos não precisam demonstrar que suas ideias funcionam na prática. Basta que pareçam nobres e elevadas” — Thomas Sowell, Os Ungidos
Na tradição constitucional republicana, o papel da Suprema Corte – como delineado por Montesquieu e consagrado pelas experiências anglo-americanas – é o de custos legis, o guardião da lei, não seu fabricante.
O juiz supremo deve ser o servidor da norma, não seu profeta.
No entanto, quando a toga se converte em púlpito, e a jurisprudência em cruzada moral, a função jurisdicional degenera em vanguardismo messiânico.
Esse é o drama brasileiro contemporâneo: a transformação do Supremo Tribunal Federal em arena de engenharia social, moralização política e tutela da consciência coletiva.
Thomas Sowell, em sua obra The Vision of the Anointed – traduzida no Brasil como Os Ungidos –, descreve com precisão esse fenômeno: trata-se da ascensão de uma elite autoproclamada moralmente superior, legitimada não por mérito, mas por intenções retóricas e preferências políticas de ocasião, e investida da missão de corrigir os “erros” da sociedade comum.
Esses “ungidos” não se consideram intérpretes da realidade, mas reformadores dela.
São sacerdotes de uma fé secularizada, cujo dogma é o igualitarismo forçado, o progressismo compulsório e o politicamente correto determinado por uma visão assim considerada “de tipo superior”.
O STF brasileiro tem, nos últimos anos, incorporado perigosamente esse ethos.
Longe de ser um tribunal da lei, tornou-se um tribunal de valores perigosamente subjetivos. Em nome de “direitos fundamentais”, relativiza o devido processo legal.
Em nome da “democracia”, censura vozes dissidentes.
Em nome da “tolerância”, criminaliza a divergência.
A racionalidade jurídica – outrora centrada na ratio decidendi e nos limites da interpretação constitucional – foi substituída por uma jurisprudência volátil, centrada na vontade arrogante de ministros que se veem como pedagogos da nação.
O artigo 1º da Constituição Federal afirma que a República Federativa do Brasil se funda na soberania, na cidadania e na dignidade da pessoa humana.
Mas essa soberania é solapada quando o Supremo se vê como suprapoder; essa cidadania é esvaziada quando a liberdade de expressão é tolhida por decisões teratológicas; e essa dignidade é ferida quando o indivíduo passa a ser objeto de tutela moral, e não sujeito de direitos naturais.
Segundo Sowell, os ungidos estão sempre “insulados das consequências de suas políticas”.
Isso se aplica com inquietante precisão à elite jurídica brasileira, cujas decisões são blindadas ao escrutínio popular, mas com impacto direto sobre o tecido social e econômico.
Ao legislar do alto, sem responsabilidade ou feedback, ministros tornam-se figuras aristocráticas de uma neorreligião política – fiéis ao culto da “virtude” (seja lá o que isso signifique) e hostis à liberdade concreta.
Os “ungidos” do STF julgam-se porta-vozes de um bem maior, acima das limitações democráticas e do consenso constitucional.
No lugar do rule of law, instauram o rule of will.
Em nome da “defesa da democracia”, perseguem parlamentares, censuram jornais, intimidam empresários, tutelam redes sociais e estigmatizam intelectuais – instaurando aquilo que Tocqueville já chamava de tirania da opinião pública gerida por uma elite burocrática.
É preciso lembrar o que Friedrich Hayek escreveu em Os Fundamentos da Liberdade: “não há forma de coerção mais insidiosa do que aquela que se reveste de benevolência“.
O “autoritarismo do bem” – este é o novo rosto da tirania moderna.
Não mais generais ou coronéis, mas magistrados togados e tecnocratas que, como diria Ayn Rand, “não pedem sua opinião, pedem sua obediência”.
Essa crise de legitimidade do STF é, portanto, menos uma questão institucional e mais um problema moral e epistêmico.
É a degeneração de uma Corte em casta iluminada.
É a substituição da função judicante pela função tutelar.
É a tragédia de uma República em que os intérpretes da Constituição se tornaram seus reescritores.
Diante disso, a resposta não está em trocar ministros por outros ungidos, nem em esperar a moderação de quem crê ser infalível.
A resposta está em resgatar a concepção clássica de separação de poderes, a limitação da função estatal e a centralidade da liberdade individual como critério de legitimidade.
Está em devolver ao cidadão…
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Comentários (1)
Sonia
29.03.2025 10:47Excelente texto!👏👏👏👏