Orlando Tosetto Júnior na Crusoé: O show de Tchrãmp
Escutei o discurso do presidente americano, mas estou longe das sutilezas de percepção dos analistas internacionais
Não fui à posse de Donald Trump (cujo nome, na TV, é pronunciado “Tchrãmp” pelas jornalistas amigas do Governo).
É verdade que também não fui convidado; mas não iria mesmo se tivesse sido.
Não se trata de esnobismo, veja bem. Nem de nada contra o Trump, ou contra a bela Melania, e nada também contra o make America great again parte 2.
É que eu não gosto de badalação. E a próxima vez que vestirei um terno vai ser no meu enterro.
Aliás, não tenho nada contra os ternos também; é que eles não se dão bem com a minha barriga. (Veja só, amigo: nada contra ninguém. Eu sou um doce de coco.)
Espiei o evento assim por alto, via redes sociais. Só depois fui ver os jornais, conferir se as notícias acompanhavam as minhas impressões. E não é que eu entendi tudo errado?
Porque, segundo os jornais brasileiros, parece que o discurso do Tchrãmp meio que prometia matar todo o mundo; que foi homofóbico, mesmo dançando com o Village People; e que foi pau nos imigrantes, mesmo a mulher dele sendo imigrante, e mesmo um dos membros importantes do governo dele, o Elon Musk, sendo também imigrante.
Quem vê show não vê coração. Estou longe, portanto, das sutilezas de percepção dos analistas internacionais.
Também vi que há uma parcela comovente do público brasileiro depositando algum tipo de esperança no sr. Tchrãmp.
Gente achando que ele vai salvar, ou vai ajudar a salvar, a nossa pátria.
Que vai ser o anjo vingador de desmandos sofridos por aqui de direitistas como ele, Tchrãmp, parece ser.
Ou que ele é a ponta de lança de uma onda direitista-conservadora irreprimível, que começou com Javier Milei e vai tomar o mundo de assalto.
Não quero decepcionar ninguém, muito menos o amigo ou a amiga que me lê, mas, olhe: duvido.
Eu acho que o sr. Tchrãmp não tem nem muito tempo, nem muita vontade de ficar olhando pra gente (eu não o culpo: quem, senão os brasileiros, presta muita atenção ao Brasil?), de modo que esperar dele soluções, ou simples ajuda, nas nossas encrencas internas é pura perda de tempo.
Aliás, consta que ele andou declarando que nós precisamos mais dele do que ele de nós (o que, por mais que doa admitir, é verdade).
E se a gente quiser alguma onda de direita conservadora por aqui, vamos ter que dar um jeito nisso nós mesmos. Caso deixem.
O rolo do Pix
Logo antes disso teve também o rolo do Pix, né?
Rolo que eu, particularmente, não entendi bem. Parece que o Governo decretou que a Receita ia passar a vigiar quem movimentasse mais de 5 mil reais por mês no Pix, e eu fiquei surpreso: uai, então ainda não vigiava?
Ainda mais neste governo?
Depois a medida caiu por causa do vídeo daquele deputado jovenzinho, cheio do estardalhaço retórico dos neopentecostais.
Depois ainda, saiu outro vídeo, esse talvez (não entendi bem) a favor da bisbilhotice do fisco, feito por uma deputada governista e trans.
Pois é: o rolo do Pix opôs um proto-pastor a uma trans. E o proto-pastor saiu vencedor. Não há tédio no Brasil.
Não chegou a surpreender ninguém uma jornalista vir a público (se bem que é isso o que os jornalistas fazem, não é? Eles vêm a público, eles ficam vindo a público sem parar) para condenar o deputado jovenzinho dizendo que “desacreditar e atacar medidas públicas é crime”.
Lembrei logo do quão criminosa a imprensa foi até recentemente, digamos, entre 2019 e 2022, quando desacreditava tudo o que o governo dizia, mostrava ou sugeria – até da cor do céu a imprensa descria se o governo decretasse que era azul – e achei que a jornalista não estava, como direi?, num dia bom.
Depois pensei melhor e acabei compreendendo o ponto de vista da moça.
Ela integra uma certa ala do jornalismo que acha que o Governo se divide em três partes (ou em três metades, como dizem alguns): 1) uma maravilha, 2) uma maravilha muito maravilhosa, e 3) uma maravilha totalmente gloriosa e fofinha.
É claro que, para esse pessoal, discordar deste Governo sem máculas, sem jaças, feito de pura perfeição, parece sacrilégio e soa, sem dúvida, criminoso.
É quase como xingar a mãe (eu disse “quase”?). Por essa ótica, é justa a indignação.
E depois os jornalistas ainda puseram o fracasso do fisco watch na comunicação do Governo.
Disseram, dizem ainda, que a coisa não andou porque o Governo não se explicou direito, não deixou claro pro povão (que é quem gira de verdade o Pix no Brasil: pedreiro, manicure, camelô, barbeiro, feirante, quitandeiro, motoboy) o tanto que a coisa era boa.
Não botou um ator bonitão na…
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