Liberdade de expressão: está na hora de tentar algo novo

03.10.2026

logo-crusoe-new
O Antagonista
Liberdade de expressão: está na hora de tentar algo novo
avatar
Carlos Graieb
6 minutos de leitura 15.12.2023 17:27 comentários
Opinião

Liberdade de expressão: está na hora de tentar algo novo

Em sua sabatina no Senado na última terça-feira, o novo Procurador-Geral da República Paulo Gonet repetiu um daqueles chavões que estão se naturalizando no nosso debate público – o que significa que começam a passar batido, como se contestá-los fosse sem sentido...

avatar
Carlos Graieb
6 minutos de leitura 15.12.2023 17:27 comentários 0
Liberdade de expressão: está na hora de tentar algo novo
Foto: Pedro França/Agência Senado

Em sua sabatina no Senado na última terça-feira, o novo Procurador-Geral da República Paulo Gonet repetiu um daqueles chavões que estão se naturalizando no nosso debate público – o que significa que começam a passar batido, como se contestá-los fosse sem sentido.

Refiro-me à sua declaração de que “a liberdade de expressão não é plena, pode e deve ser modulada de acordo com as circunstâncias”.

Num sentido muito básico, a declaração é verdadeira até mesmo no país que mais protege a liberdade de expressão, os Estados Unidos. Vem de lá um dos exemplos de “modulação” citados por Gonet na sabatina, o célebre caso do sujeito que grita “Fogo!” em um espaço lotado, causando pânico e atropelo.

A Suprema Corte dos Estados Unidos usou essa situação hipotética em 1937 para criar um teste capaz de orientar decisões futuras: se uma fala pública cria circunstâncias de “perigo claro e iminente”, ela não está coberta pela liberdade de expressão.

Como todos os outros sistemas legais, o americano também protege os cidadãos contra injúrias, difamação e calúnias – especialmente essas últimas, que consistem em atribuir uma conduta criminosa a uma pessoa.

Em geral, no entanto, a balança no judiciário americano pende para a liberdade e não para o controle. Desde 1964, a Corte Suprema deixou claro que personagens notórios – e também funcionários públicos como juízes e promotores – só serão indenizados por ofensas veiculadas na imprensa se provarem que houve má fé na publicação.

O STF brasileiro, que recentemente tornou veículos de comunicação corresponsáveis por ofensas praticadas por entrevistados, jura de pés juntos que pretendia replicar a lógica adotada nos Estados Unidos. Mas é difícil de acreditar.

Primeiro, porque a tese do STF foi redigida em linguagem ambígua, o que indica duas possibilidades preocupantes: ou incapacidade de produzir um texto claro, ou o desejo de fazer exatamente como fizeram.

Em segundo lugar, porque toda a ênfase dos discursos dos ministros, seja nos autos, seja nas muitas vezes em que se manifestam em público, tem sido no sentido de apontar para os supostos males, prejuízos e perigos causados pela liberdade de expressão.

Não se trata de um discurso sobre a liberdade, mas sobre a importância, a necessidade mesmo de restringi-la e submetê-la a constante vigilância. O mesmo vale para a fala de Gonet.

Por razões que não têm a ver com meu trabalho no Antagonista, acabei tendo de dar uma espiada no processo de criação das leis de imprensa das décadas de 1920 e 1930.

Fiz uma constatação chocante: a linguagem usada nas discussões daquela época, em que a imprensa estava sob assédio constante, quando não sob censura pura e simples, é parecidíssima com a que autoridades como Gonet usam hoje em dia.

A primeira lei de imprensa do período republicano foi formulada em 1922 e promulgada em 1923. Seu autor foi o senador Adolpho Gordo, que discursou desta forma ao apresentar o projeto:

“Não diz novidade alguma afirmando que a liberdade da imprensa é a garantia e mesmo a condição – não só das liberdades individuais, como das liberdades sociais. Mas, se o legislador deve garantir plenamente a liberdade da imprensa, deve também, tendo em vista elevados e ponderosos interesses de ordem publica, procurar evitar, com medidas salutares e benéficas, que essa liberdade se converta em abuso.”

Veja que 100 anos atrás a fórmula “a liberdade de imprensa é fundamental, mas…” já estava em pleno uso.

Depois que a lei entrou em vigor, em 1923, ela foi usada pelo governo para censurar jornais por atentado aos bons costumes e para levar jornalistas e diretores de veículos para a cadeia.

Uma das principais promessas da Aliança Liberal, o partido de Getúlio Vargas nas eleições de 1930, era restituir a plena liberdade de expressão ao país.

O grupo perdeu as eleições e tomou o poder com a Revolução de 30. Nos anos de Governo Provisório que se seguiram, a censura foi mantida. Por causa disso, a liberdade de expressão também era um tema quentíssimo quando uma Assembleia Constituinte passou a funcionar, no final de 1933. Obviamente, governistas (amplamente majoritários) e oposicionistas estavam de acordo que ela deveria ser restaurada com todas as honras pela nova Carta.

Mas, quando a Constituição que “encerrava o período de governo ditatorial” (os próprios partidários do regime não hesitavam em usar essa palavra) ficou pronta, este foi seu artigo sobre a questão:

“Em qualquer assunto é livre a manifestação do pensamento, sem dependência de censura, salvo quanto a espetáculos e diversões públicas, respondendo cada um pelos abusos que cometer, nos casos e pela forma que a lei determinar. Não é permitido anonimato. É segurado o direito de resposta. A publicação de livros e periódicos independe de licença do Poder Público. Não será, porém, tolerada propaganda, de guerra ou de processos violentos, para subverter a ordem política ou social.”

Pela primeira vez no Brasil, uma Constituição estabeleceu a censura prévia. O governo que havia chegado ao poder por uma revolução proibia discursos revolucionários.

Pouco depois de a Constituição de 1934 entrar em vigor, Vargas editou um decreto regulamentando a imprensa. Seu capítulo sobre delitos e penas tinha 18 artigos, entre os quais a primeira criminalização das fake news:

“Art. 11. Publicar notícias falsas, ou noticiar fatos verdadeiros, umas e outros, porém, tendenciosamente, por forma a provocar alarme social, ou perturbação da ordem pública; – penas de multa de 500$ a 2:000$ ou prisão por um a seis meses.”

Desculpe se me alonguei com essas citações todas. É que fiquei espantado, como disse, ao perceber como a tradição brasileira de medo e desconfiança em relação à liberdade de expressão e à liberdade de imprensa vem de longe. 

Juízes e políticos que hoje em dia, em nome do “binômio liberdade com responsabilidade”, pretendem criar mecanismos estatais de combate às fake news, proteção à honra de pessoas públicas e coisas tais, macaqueiam atitudes de um século atrás (para ficar no período da República). Eles põem a ordem muito acima da liberdade.

Pergunto-me se não seria o caso de tentar algo novo. Em vez de repetir a fórmula “a liberdade é importante, mas…”, invertê-la para ver o que resulta:  “Somos um país de hábitos autoritários que vêm de muito longe, mas está na hora de encontrar maneiras de fomentar a liberdade de expressão.” 

  • Mais lidas
  • Mais comentadas
  • Últimas notícias
1

Apostas em Flávio caem para 57% na Polymarket

Apostas em Flávio caem para 57% na Polymarket
2

Datafolha mostra Lula à frente em MG e PE e Flávio no RJ e DF

Datafolha mostra Lula à frente em MG e PE e Flávio no RJ e DF
3

Vini Jr. obtém direito de resposta contra Ruas

Vini Jr. obtém direito de resposta contra Ruas
4

Banco Master patrocinou evento com João Campos e Tabata

Banco Master patrocinou evento com João Campos e Tabata
5

Crusoé: O triste fim da candidatura de Renan Santos

Crusoé: O triste fim da candidatura de Renan Santos
6

Crusoé: Lula aposta em mini-documentário contra Flávio

Crusoé: Lula aposta em mini-documentário contra Flávio
7

PF cumpre buscas em investigação sobre suposto plano contra Embaixada dos EUA

PF cumpre buscas em investigação sobre suposto plano contra Embaixada dos EUA
8

“Tá com hiperfoco, domingo te respondo, Canja”, diz Nikolas

“Tá com hiperfoco, domingo te respondo, Canja”, diz Nikolas
9

Lula pede ao TSE investigação sobre suspensão de serviços consulares dos EUA

Lula pede ao TSE investigação sobre suspensão de serviços consulares dos EUA
10

Damares diz que Bolsonaro passou mal e que Michelle está “presa” com o ex-presidente

Damares diz que Bolsonaro passou mal e que Michelle está “presa” com o ex-presidente
1

Dino e Gilmar esculhambaram a eleição

Dino e Gilmar esculhambaram a eleição
2

Campanha de Lula convoca “milhões de Lulas” para mobilização

Campanha de Lula convoca “milhões de Lulas” para mobilização
3

Datafolha mostra Lula à frente em MG e PE e Flávio no RJ e DF

Datafolha mostra Lula à frente em MG e PE e Flávio no RJ e DF
4

Lula pede ao TSE investigação sobre suspensão de serviços consulares dos EUA

Lula pede ao TSE investigação sobre suspensão de serviços consulares dos EUA
5

Lula tenta corrigir fala sobre limite de cartões de crédito

Lula tenta corrigir fala sobre limite de cartões de crédito
6

Crusoé: Quando o juiz decide o que a lei deveria ser

Crusoé: Quando o juiz decide o que a lei deveria ser
7

Meio-Dia em Brasília: TV Globo é alvo de censura do TSE e do STF; eleições livres acabaram?

Meio-Dia em Brasília: TV Globo é alvo de censura do TSE e do STF; eleições livres acabaram?
8

Ministra eleitora de Lula no TSE resguardou o presidente, mas penalizou o eleitor

Ministra eleitora de Lula no TSE resguardou o presidente, mas penalizou o eleitor
9

MP Eleitoral pede multa a Lula, Flávio e outros candidatos a presidente

MP Eleitoral pede multa a Lula, Flávio e outros candidatos a presidente
10

Crusoé: O que os nossos juízes ainda vão aprontar nesta eleição?

Crusoé: O que os nossos juízes ainda vão aprontar nesta eleição?
1

Campanha de Lula convoca “milhões de Lulas” para mobilização

Campanha de Lula convoca “milhões de Lulas” para mobilização
2

Fachin envia ao STJ inquérito sobre “gabinete do ódio” em Pernambuco

Fachin envia ao STJ inquérito sobre “gabinete do ódio” em Pernambuco
3

Crusoé: Lula aposta em mini-documentário contra Flávio

Crusoé: Lula aposta em mini-documentário contra Flávio
4

Polícias de SP reforçam segurança no 1º turno

Polícias de SP reforçam segurança no 1º turno
5

“Tá com hiperfoco, domingo te respondo, Canja”, diz Nikolas

“Tá com hiperfoco, domingo te respondo, Canja”, diz Nikolas
6

Vini Jr. obtém direito de resposta contra Ruas

Vini Jr. obtém direito de resposta contra Ruas
7

Bolsonaro tem tornozeleira eletrônica substituída durante prisão domiciliar

Bolsonaro tem tornozeleira eletrônica substituída durante prisão domiciliar
8

A 2 dias da eleição, governo Lula aposta na tese de interferência dos EUA

A 2 dias da eleição, governo Lula aposta na tese de interferência dos EUA
9

Apostas em Flávio caem para 57% na Polymarket

Apostas em Flávio caem para 57% na Polymarket
10

Rio lidera inquéritos por crime eleitoral no país

Rio lidera inquéritos por crime eleitoral no país

Tags relacionadas

Fake news liberdade de expressão Paulo Gonet STF
< Notícia Anterior

Eduardo Braga comemora IPI para Zona Franca de Manaus

15.12.2023 00:00 4 minutos de leitura
Próxima notícia >

Crusoé: exército de Israel acidentalmente mata três reféns israelenses

15.12.2023 00:00 4 minutos de leitura
avatar

Carlos Graieb

Carlos Graieb é jornalista formado em Direito, editor sênior do portal O Antagonista e da revista Crusoé. Atuou em veículos como Estadão e Veja. Foi secretário de comunicação do Estado de São Paulo (2017-2018). Cursa a pós-graduação em Filosofia do Direito, da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP).

Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.

Comentários (0)

Torne-se um assinante para comentar

Início

Seja nosso assinante

E tenha acesso exclusivo aos nossos conteúdos

Apoie o jornalismo independente. Assine O Antagonista e a Revista Crusoé.