Psicólogo robô é viável? Benefícios e riscos da terapia com IA
Quando chatbots são usados como psicoterapeutas, isso pode ser útil. Mas também pode ser perigoso
A busca por apoio emocional por meio de tecnologias avançadas, como a inteligência artificial, tem se tornado cada vez mais comum. Uma pesquisa recente indica que chatbots podem oferecer auxílio significativo a pessoas enfrentando problemas psicológicos.
O nível de compreensão que os usuários relatam ao interagir com máquinas surpreendeu até mesmo os pesquisadores envolvidos no estudo.
Milhões de indivíduos frequentemente experienciam um profundo vazio ou uma ansiedade paralisante.
Muitos deles não recebem tratamento psicológico adequado. Alguns esperam meses por uma vaga em terapia, enquanto outros se sentem envergonhados e relutam em discutir suas dificuldades com outras pessoas. Dentre esse contingente já há aqueles que recorrem à inteligência artificial.
Terapia e ChatGTP
Um levantamento realizado pela empresa Filtered, publicado na Harvard Business Review, indica que uma quantidade crescente de pessoas recorre ao ChatGPT e similares em busca de conselhos durante momentos de crise emocional.
Mark Zuckerberg, CEO do Meta, comentou recentemente que aqueles sem acesso a terapeutas humanos podem encontrar suporte em inteligências artificiais.
Startups focadas em saúde mental estão aproveitando essa demanda para desenvolver chatbots terapêuticos, prometendo assistência a quem enfrenta questões emocionais. Entretanto, a eficácia dessas interações ainda é um tema debatido entre especialistas.
Contribuição positiva da IA?
Um estudo recente da Universidade de Dartmouth revelou que a IA pode contribuir positivamente no tratamento de distúrbios mentais.
Os pesquisadores descobriram que a percepção de conexão entre pacientes e seus interlocutores terapêuticos não difere entre humanos e chatbots. A descoberta surpreendeu os próprios autores do estudo, incluindo Nicholas Jacobson, especialista em ciência de dados biomédicos e psiquiatria.
A pesquisa avaliou a eficácia de um chatbot terapêutico desenvolvido pelos pesquisadores em um grupo de 210 participantes diagnosticados com depressão, transtornos de ansiedade ou risco de transtornos alimentares.
Os participantes foram divididos em dois grupos: um teve acesso ao chatbot chamado Therabot, enquanto o outro não teve essa oportunidade. Após quatro e oito semanas, todos os participantes preencheram questionários sobre seu progresso terapêutico.
Os resultados mostraram que aqueles que interagiram com o Therabot relataram melhorias mais significativas em comparação aos que não tiveram essa experiência. No entanto, a pesquisa não comparou diretamente a eficácia entre terapia humana e virtual.
A constatação de que as pessoas conseguem formar laços emocionais com terapeutas virtuais sugere um potencial promissor para o uso da tecnologia nesse campo. Estudos indicam que até 10% do sucesso terapêutico pode ser atribuído à qualidade da relação entre terapeuta e paciente.
Riscos do “terapeuta” virtual
No entanto, existem ressalvas importantes quanto ao uso da IA para fins terapêuticos. A psicóloga organizacional Marisa Tschopp expressa ceticismo sobre o uso indiscriminado de chatbots generativos na saúde mental.
Ela enfatiza a necessidade de supervisão rigorosa dos bots para evitar riscos associados à geração inadequada de informações que podem agravar a condição dos usuários.
Tschopp destaca também que as relações humanas podem ser ameaçadas à medida que as pessoas começam a tratar bots como amigos ou companheiros íntimos.
O historiador Yuval Noah Harari advertiu recentemente sobre os perigos dessa dinâmica no contexto das interações sociais.
Therabot
Por outro lado, Jacobson defende a flexibilidade dos chatbots personalizados como o Therabot, que oferece respostas adaptadas às necessidades dos usuários. Ele ressalta que o modelo utilizado permite uma maior interação e conexão emocional em comparação aos bots baseados apenas em regras fixas.
É importante notar que o Therabot desenvolvido por Jacobson ainda não está disponível ao público e foi criado exclusivamente para fins de pesquisa.
Durante o estudo, a equipe monitorou todas as sessões para garantir que o chatbot não emitisse respostas prejudiciais aos usuários.
A rápida evolução desse setor gera preocupações sobre a qualidade dos chatbots disponíveis comercialmente. Jacobson alerta que muitos modelos são inseguros e podem exacerbar os sintomas dos usuários devido à sua falta de robustez.
Terapeuta virtual ou humano?
Os pesquisadores enfatizam a importância da intervenção humana em situações críticas. Em casos onde há risco à vida ou situações graves, é imprescindível buscar ajuda profissional adequada.
Embora os chatbots possam fornecer suporte adicional valioso para aqueles sem acesso à terapia tradicional, eles nunca devem ser vistos como substitutos completos da interação humana na saúde mental.
Leia mais: “Negar a IA agora é fingir que nada mudou”
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)