O segundo turno e o Brasil que empreende
O empreendedorismo não esteve ausente das campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro, mas tampouco recebeu toda a atenção que merece
O empreendedorismo não esteve ausente das campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro, mas tampouco recebeu toda a atenção que sua importância econômica merece.
Os dois registraram propostas para micro, pequenas e médias empresas, crédito, tecnologia e ambiente de negócios.
O segundo turno abre uma oportunidade para exigir mais. Empresas e entidades empresariais podem e devem cobrar detalhes sobre o que cada um pretende fazer pelo Brasil que empreende. E, sobretudo, mais ambição.
Por que isso importa
O tamanho do Brasil empreendedor impressiona. O Global Entrepreneurship Monitor (GEM) estima 44,1 milhões de empreendedores de 18 a 64 anos no país, em 2025.
Além disso, 39,7% dos brasileiros dessa faixa etária dizem que ter o próprio negócio está entre seus maiores sonhos.
O problema está na qualidade e na trajetória desses negócios. Só 41,2% dos empreendedores iniciais têm CNPJ. E apenas 3,6% dos iniciais e 5,5% dos estabelecidos comandam negócios classificados pelo GEM como de impacto nacional; os de impacto internacional não chegam a 1%.
Há ainda um contraste revelador: quase 95% dos empreendedores iniciais já usam ferramentas digitais para vender. Digitalização básica, portanto, não significa necessariamente inovação, produtividade ou escala.
A questão para o próximo governo, portanto, é como fazer empresas sobreviverem, aumentarem a produtividade e crescerem.
Panorama: o que dizem os candidatos
Visão central: Lula aposta principalmente na indução estatal. Seu programa prevê ampliar crédito e fundos garantidores, fortalecer programas como o Brasil Mais Produtivo e usar compras governamentais para apoiar pequenas empresas. Também promete difundir tecnologia e inteligência artificial entre os pequenos negócios.
Flávio Bolsonaro coloca maior peso na retirada de obstáculos. Propõe o “Tesouraço da Burocracia”, ampliação da Lei de Liberdade Econômica e dispensa de alvarás e licenças para atividades de baixo risco.
Outras propostas: Lula promete tratamento específico às pequenas empresas durante a implantação da reforma tributária, orientação contábil digital e maior acesso às compras públicas.
Flávio propõe o Minha Primeira Empresa, combinando simplificação, capacitação e crédito; revisão de pontos da reforma tributária; e apoio de BNDES e Apex à internacionalização das PMEs.
Os dois incorporaram inteligência artificial às suas agendas.
Lupa
Talvez a diferença com consequências mais imediatas para as empresas esteja fora dos capítulos dedicados pelos candidatos ao empreendedorismo: o custo e a organização do trabalho.
O tema voltou ao centro da agenda nesta semana. O Senado começou a discutir em plenário a PEC 221/2019, já aprovada pela Câmara e pela CCJ, que reduz a jornada máxima de 44 para 40 horas, estabelece dois dias de descanso semanal e preserva salários.
A votação em primeiro turno pode ocorrer na próxima semana. O governo Lula mobiliza sua base pela aprovação.
Flávio rejeita essa solução e defende uma alternativa baseada na remuneração por hora, preservando proporcionalmente direitos como férias, 13º, FGTS e INSS.
Seu argumento é que o modelo permitiria maior flexibilidade para empresas e trabalhadores; ele sustenta também que a redução obrigatória da jornada elevaria custos e ameaçaria empregos.
Para restaurantes, varejistas, prestadores de serviços e pequenas indústrias, não é uma discussão lateral: tem impacto direto sobre folha, turnos, preços e decisões de contratação.
No radar
O segundo turno deveria servir para preencher o que os programas deixaram em aberto. Há pelo menos ccinco respostas a cobrar:
- Como transformar microempresas em pequenas e pequenas em médias; como ampliar
- Como incentivar a oferta de capital privado em vez de apenas oferecer crédito;
- Como converter IA e digitalização em produtividade mensurável;
- Como facilitar formalização e crescimento sem criar saltos tributários que desestimulem a expansão (como ocorre com o MEI, que precisa mudar de regime ao ultrapassar o teto anual de R$ 81 mil);
- Quanto custam as políticas propostas — e como serão financiadas sem agravar o quadro fiscal.
Também caberia exigir metas. Quantas empresas o próximo governo pretende levar a novos mercados? Que aumento de produtividade espera obter? Como medirá o resultado dos programas de crédito e tecnologia? E que tratamento dará às empresas médias, frequentemente grandes demais para políticas voltadas aos pequenos e pequenas demais para acessar os instrumentos disponíveis às grandes companhias?
Resumo da ópera
O Brasil já tem milhões de empreendedores e outros milhões querendo se juntar a eles. O mais difícil é construir empresas que sobrevivam, formalizem-se, inovem e ganhem escala. Lula oferece indução pública; Flávio, remoção de barreiras. No segundo turno, o radar empresarial deve apontar para o que falta aos dois: uma estratégia mais completa para transformar empreendedorismo em produtividade e crescimento empresarial.
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