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Retórica anti-Israel e ódio ao Ocidente, de Mélenchon a Lula

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Catarina Rochamonte
7 minutos de leitura 21.11.2023 19:04 comentários
Opinião

Retórica anti-Israel e ódio ao Ocidente, de Mélenchon a Lula

As retóricas anti-Israel de Lula e Mélenchon, durante esta guerra, pouco diferem; são igualmente irresponsáveis e perigosas...

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Catarina Rochamonte
7 minutos de leitura 21.11.2023 19:04 comentários 0
Retórica anti-Israel e ódio ao Ocidente, de Mélenchon a Lula
Reprodução: X @JLMelenchon
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O filósofo francês Luc Ferry publicou em 2 de novembro, no jornal Le Figaro, um artigo intitulado “Judeofobia, compreendendo a nova situação”. Ferry argumenta, no referido texto, que o atual ódio aos judeus não deve ser compreendido através da mesma lógica aplicada às velhas formas do antissemitismo nazista.

Na década de 1930, as antigas faces do antissemitismo foram reforçadas pelo antissemitismo islâmico da Irmandade Muçulmana, “cujos líderes, deslumbrados com Hitler, fizeram de tudo para apoiá-lo”. Hoje, na Europa, explica o filósofo, o antissemitismo vem mesclado a novas formas de ideologias. A ele se junta “uma nova forma de judeofobia, a do wokismo e do islamo-esquerdismo, aos olhos dos quais o muçulmano substituiu o proletário no papel dos oprimidos”.

Ferry alerta para a urgência de se reconhecer essa nova fase ou nova faceta do antigo ódio aos judeus, sob o risco de passarmos ao largo da real ameaça.

A nova judeofobia, explica, “baseia-se na ideia de que o sionismo é o mais recente avatar do colonialismo ocidental e racista apoiado pelo neoliberalismo americano, o principal apoio de Israel, de modo que o sionismo acumularia tudo o que a extrema esquerda odeia”.

Os que fazem do Hamas um movimento de resistência e se recusam a qualificá-lo como terrorista expressam a ideologia do ódio ao “Ocidente colonizador”.

Por mais que “o ódio a Israel evidenciado pelas palavras de Jean-Luc Mélenchon ou Antonio Guterres [seja] desprezível”, explica Ferry, eles não preenchem nenhuma das caixas das antigas correntes antissemitas: não são nem fanáticos religiosos, nem teóricos da “raça judaica”.

À análise de Luc Ferry juntam-se outras, como a do ensaísta Gilles William Goldnadel, que também escreveu no jornal Le Figaro sobre a importância de se nomear as atuais ameaças que, segundo ele, são bem conhecidas e “se chamam antissemitismo islâmico e extrema-esquerda cúmplice”.

Como escrevemos em artigo anterior, a “Marcha contra o antissemitismo e pela República”, realizada na França em 12 de novembro, comprovou que o ódio aos judeus se abriga hoje muito mais na extrema-esquerda do que em uma direita comumente demonizada.

Esse diagnóstico não se limita à França, mas, lá, a presença, na marcha contra o antissemitismo, do partido de Marine Le Pen (Rassemblement National), representante da extrema-direita, e a ausência do partido de Jean-Luc Mélenchon (La France Insoumise), representante da extrema-esquerda, comprovou a tese.

O Rassemblement National é o antigo Front National, liderado pelo pai de Marine, Jean Marie Le Pen, em cujo histórico pesam comentários antissemitas e negação do Holocausto. Marine, no entanto, trabalha hoje com o que ela mesma chama de desdemonização do seu partido: “Deixemos que os eleitores nos julguem pelo que somos hoje, não pelas fantasias herdadas do passado! Estão atacando o RN com argumentos arqueológicos.”, declarou a deputada em entrevista ao site suiço Blick.

Questionada na mesma entrevista se acusar o seu partido de ser antissemita era uma acusação arqueológica, Le Pen respondeu: “Estávamos no nosso lugar no domingo, na grande manifestação parisiense contra o antissemitismo. […] Quem não estava lá? A extrema esquerda.”

Por cálculo político ou não, o fato é que o partido de Le Pen, considerado de extrema-direita, foi um dos primeiros a responder à convocação para a manifestação contra o antissemitismo, enquanto Jean-Luc Mélenchon e seu partido não apenas não compareceram à marcha como levaram adiante uma campanha difamatória contra Israel em um país onde os casos de antissemitismo aumentaram exponencialmente depois do início da guerra.

Se o leitor brasileiro não sabe bem quem é Mélenchon e está meio perdido nesta análise, uma boa forma de se familiarizar com ele é consultar o site do Partido dos Trabalhadores. Lá se pode ler uma nota oficial, escrita por ocasião das disputa presidencial na França, em 2022, na qual Mélenchon concorreu com Le Pen e Macron, ficando em terceiro lugar.

Na referida nota, o PT manifesta seu “reconhecimento e gratidão pela irrestrita solidariedade que os companheiros da França Insubmissa sempre demonstraram ao Partido dos Trabalhadores”, afirma que não esquecerá “de sua firme posição diante do golpe contra a presidenta Dilma e da condenação injusta e ilegal do presidente Lula” e finalmente deseja “sucesso ao companheiro Jean-Luc Mélenchon e a França Insubmissa nas jornadas eleitorais”.

As retóricas anti-Israel de Lula e Mélenchon, durante esta guerra, pouco diferem; são igualmente irresponsáveis e perigosas. Mas enquanto Mélenchon é um político com poucas chances de se eleger presidente, rechaçado por quase toda a esquerda moderada, Lula é o presidente do maior país da América Latina e está empenhado no fortalecimento do tal “sul global”, cuja ideologia é aquela do “ódio ao Ocidente colonizador”, à qual o filósofo Luc Ferry se referia.

O povo francês carece hoje de uma perspectiva política na qual a República não seja confundida com uma insana e autodestrutiva concessão ao multiculturalismo, que tem sido o mote acadêmico mal utilizado na boca de estudantes e intelectuais que optaram por um lado da História, aquele de quem foi colonizado.

A colonização, no seu aspecto brutal, é legitimamente condenável, mas o fato de determinados valores terem sido trazidos através dela não implica que esses valores sejam inadequados. Países como o Brasil, que estiveram sob a dominação europeia, podem sim se considerar herdeiros do patrimônio cultural europeu sem que isso implique uma submissão a quem quer que seja.

Não se trata hoje de uma luta entre colonizadores e colonizados, não se trata de uma luta entre as potências europeias e os frágeis indígenas. A retórica esquerdista da “decolonização” mal consegue escamotear sua pretensão de acabar com o legado cultural do Ocidente sob o pretexto de ser um legado de opressão e iniquidades.

O legado do Ocidente, porém, é muito maior do que seus erros e seus desvios. Trata-se de uma história civilizacional, que trouxe ao mundo os Direitos Humanos e o Estado de Direito, a liberdade e a igualdade.

Somos herdeiros dos europeus, tanto quanto o somos dos judeus e árabes. O patrimônio grego foi preservado por esses povos e retornou ao Ocidente no momento decisivo e oportuno, que possibilitou a modernidade.

A relação entre judeus e árabes não é problemática. Problemáticos são os discursos demagógicos de ambos os lados que, dentro do seu espectro político característico, tentam fazer com que povos e nações se odeiem e se aniquilem.

Diante do terrorismo não deveria haver concessões. No entanto, existe e se fortalece a retórica insidiosa que condena Israel pela resposta ao Hamas como se se tratasse aí de um ato covarde e cruel tal o perpetrado pelos terroristas em 7 de outubro contra os israelenses. Os que sustentam isso só o fazem porque colocam sua ideologia acima do amor ao próximo e fazem do cinismo uma arma política.

Não podemos concordar com a perigosa retórica dos que colocam o Brasil em uma posição contrária àquela das democracias do mundo livre; não podemos aceitar em silêncio que a nossa diplomacia esteja empenhada em fazer eco às mais famigeradas teorias conspiratórias contra Israel.

O povo palestino merece a nossa solidariedade e a forma mais eficaz de sermos solidários a eles é apoiando o mundo livre contra os terroristas do Hamas que — financiados pelos regimes teocráticos mais poderosos — os mantém subjugados.

 

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Catarina Rochamonte

Professora e escritora, com graduação, mestrado e doutorado em Filosofia, e pós-doutorado na área de Direito.

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