Moraes falhou onde sempre foi implacável
Revelação do contrato de seu escritório familiar com o Banco Master abriu um flanco sensível na couraça do magistrado
Por Maurício Locks*
Na Península de Maraú, no sul da Bahia, o clima abafado e as cervejas geladas ditam o ritmo das tardes. Mas é o que surge nas conversas das mesas ao lado, entre os locais, que revela o termômetro do país.
O assunto agora é a crise do Banco Master e o contrato milionário da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes (à direita na foto).
Viviane já possuía uma carreira consolidada e processos no Supremo Tribunal Federal (STF) muito antes de o marido vestir a toga na Corte, mas o contexto atual deu ao fato uma voltagem diferente.
Moraes construiu sua trajetória pública com base na autoridade, na técnica jurídica e em uma ocupação estratégica de espaço político.
Indicado ao STF por Michel Temer, com histórico na gestão paulista e passagem pelo Ministério da Justiça, ele partiu de um campo identificado com a centro-direita para se tornar o pilar central do Judiciário contemporâneo.
Confronto com o bolsonarismo
Foi no confronto direto com o bolsonarismo que Moraes consolidou sua imagem institucional definitiva.
Ele ganhou protagonismo no inquérito das fake news, enfrentou ataques sem precedentes à Corte, teve papel central na salvaguarda do processo democrático e conduziu as decisões mais duras relacionadas aos atos de 8 de janeiro.
Tornou-se, para o bem ou para o mal, o símbolo máximo de firmeza e de resposta rápida do Estado contra as investidas antidemocráticas. Por isso, a crise atual é tão significativa para o xadrez político.
Pela primeira vez em anos, Moraes não enfrenta um desafio estritamente jurídico ou uma tese constitucional complexa, mas sim um severo desgaste de reputação.
E crises de reputação não se resolvem com jurisprudência, súmulas ou despachos fundamentados.
Elas se resolvem com gestão de crise e comunicação estratégica. É justamente neste campo que o ministro, até então infalível em suas táticas, falhou.
A falha
A revelação do contrato de seu escritório familiar com o Banco Master abriu um flanco sensível na couraça do magistrado.
O problema não reside apenas no valor ou no contexto empresarial, mas no fato de que o episódio despertou na percepção pública a ideia de zonas de conflito entre interesses privados e a função pública.
No universo da comunicação de crise, a percepção costuma pesar tanto quanto o fato comprovado.
Mesmo que não existam irregularidades formais, o tema ganhou uma dimensão política que Moraes não soube conter.
Ao longo de sua carreira, o ministro foi marcado pela agilidade institucional. Em decisões difíceis, sempre reagiu com rapidez e clareza.
Contudo, nesta crise de imagem, ele agiu de maneira oposta. Demorou a responder, manteve um silêncio protocolar e não construiu uma narrativa capaz de estancar a sangria de sua credibilidade.
A demora é um erro clássico
Na lógica da comunicação estratégica, a demora é um erro clássico e muitas vezes fatal.
Quem não ocupa o espaço da narrativa permite que ele seja preenchido por versões alheias e interpretações mal-intencionadas.
O efeito foi imediato: Moraes passou a ter sua autoridade simbólica questionada, abrindo margem para uma erosão de credibilidade que contamina a própria instituição que ele tanto defendeu.
Ao mesmo tempo, o episódio fortaleceu o ambiente político do bolsonarismo.
A oposição encontrou na fragilização de Moraes o combustível necessário para reforçar sua velha narrativa de perseguição e parcialidade do Supremo.
Desgaste da imagem
A crise do Banco Master escalou enquanto o ministro assistia ao processo sem liderar sua gestão comunicacional. Ele foi conduzido pelos acontecimentos, em vez de guiá-los.
Em política e reputação, o silêncio prolongado nunca é lido como neutralidade.
O silêncio também comunica, e, neste caso específico, ele comunicou fragilidade.
Alexandre de Moraes já venceu embates complexos quando o terreno era o Direito puro. Agora, ele enfrenta uma disputa muito mais delicada, que ocorre no campo subjetivo da percepção pública.
E, neste momento, o magistrado descobre que a toga, por mais pesada que seja, não serve de escudo contra o desgaste das imagens que se formam fora dos tribunais de Brasília.
*Maurício Locks é formado em jornalismo e atua como consultor de comunicação e estrategista político. Trabalha na análise de cenários, construção de narrativas e gestão de crises, com leitura de contexto e articulação entre política e sociedade.
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