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A Ucrânia era neutra até Putin anexar a Crimeia

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Mario Sabino
5 minutos de leitura 16.03.2022 09:56 comentários
Opinião

A Ucrânia era neutra até Putin anexar a Crimeia

Ontem, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky (foto), admitiu que, apesar do discurso da Otan de que as portas estão abertas para o seu país entrar na aliança militar ocidental, isso dificilmente ocorrerá. "A Ucrânia não é um membro da Otan. Entendemos isso. Durante anos, ouvimos que as portas estavam abertas, mas também ouvimos que não podíamos aderir. Essa é a verdade e precisa ser reconhecida", disse ele a britânicos da Joint Expeditionary Force, em Londres, em videoconferência também assistida pelo primeiro-ministro Boris Johnson...

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A Ucrânia era neutra até Putin anexar a Crimeia
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Ontem, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky (foto), admitiu que, apesar do discurso da Otan de que as portas estão abertas para o seu país entrar na aliança militar ocidental, isso dificilmente ocorrerá. “A Ucrânia não é um membro da Otan. Entendemos isso. Durante anos, ouvimos que as portas estavam abertas, mas também ouvimos que não podíamos aderir. Essa é a verdade e precisa ser reconhecida”, disse ele a britânicos da Joint Expeditionary Force, em Londres, em videoconferência também assistida pelo primeiro-ministro Boris Johnson.

Seja por obra das fake news divulgadas em escala planetária pela máquina de propaganda de Vladimir Putin, seja por simples ignorância jornalística, há muita bobagem sendo dita sobre a Ucrânia e a Otan. A primeira asneira é que a aliança militar ocidental representaria uma ameaça à Rússia e ela queria muito que a Ucrânia entrasse para a organização, a fim de instalar mísseis nucleares ainda mais perto de Moscou. Na realidade, a Otan é uma aliança de caráter defensivo e nunca realizou ofensivas militares na Europa, com exceção da intervenção em Kosovo, no final dos anos 1990, para deter a “limpeza étnica” perpetrada pela Sérvia de Milosevic — ao contrário do Pacto de Varsóvia, criado pelos soviéticos, que invadiu a Hungria e a então Checoslováquia, para dar fim a movimentos que buscavam um pouco de oxigênio democrático no ambiente sufocante da Cortina de Ferro. Os países do leste europeu que correram para a aliança militar ocidental, depois da queda da União Soviética, queriam apenas defender-se do urso russo e a sua histórica sanha imperialista. A invasão da Ucrânia mostra que eles estavam cobertos de razão ao aderir à Otan.

A aliança militar ocidental exitava sobre o ingresso da Ucrânia, justamente por ser o país mais sensível à Rússia, que desde há muito mantém, inclusive, uma base militar naval em Sebastopol, na Crimeia, região anexada por Vladimir Putin desde 2014. Como afirmou Volodymyr Zelensky, a política de portas abertas da Otan nunca se aplicou, de fato, aos ucranianos. Assim como os russos, alguns países ocidentais preferiam que a Ucrânia fosse um estado-tampão.

De onde saiu, então, esse pretexto falso de Vladimir Putin — o de que a Ucrânia poderia associar-se à Otan e servir de trampolim a uma agressão contra a Rússia –, para invadir o país vizinho? Ele foi consequência direta da anexação da Crimeia e das provocações russas na região separatista de Donbas. Em 2010, dois anos depois de tentar ingressar na Otan, juntamente com a Geórgia, que acabou invadida logo depois do acesso negado pela Otan, a Ucrânia incluiu na sua Constituição uma cláusula de neutralidade militar, formalizando por lei o tratado assinado na sua independência, em 1991 — independência conquistada em troca da devolução à Rússia do arsenal nuclear soviético instalado no seu território e do compromisso de Moscou de respeitar as fronteiras ucranianas. Essa neutralidade só foi deixada de lado em 2019, justamente por causa das agressões russas em 2014 e a crescente ameaça de Moscou de invadir novamente o país, como de fato viria a ocorrer neste 2022. Naquele ano, os ucranianos incluíram na sua lei maior um artigo que previa o ingresso na Otan, mas nunca contaram, para tanto, com o apoio da França e da Alemanha, que não queriam provocar Vladimir Putin. A Polônia e os países bálticos é que pressionavam pela entrada do vizinho, sem ter, contudo, força política para fazer valer a sua vontade. Como diz a cientista política francesa Françoise Goujon, especialista em Ucrânia e Belarus, “a ameaça russa no leste da Ucrânia é feita precisamente para afastar os ocidentais, ao passo que, em troca, reforça as elites ucranianas no mérito do seu pedido de proteção às organizações euro-atlânticas”.

Em resumo, a neutralidade da Ucrânia já existia antes de Vladimir Putin anexar a Crimeia, fazer as suas lambanças em Donbas e invadir o país. Mesmo depois de 2019, a possibilidade de os ucranianos integrarem a Otan encontrou empecilhos na aliança militar ocidental, inclusive porque, para além das oposições de França e Alemanha, o país enfrenta conflitos territoriais, o que inviabiliza a sua admissão pelas próprias normas da Otan. O que o ditador russo sempre quis mesmo era tomar a Ucrânia, no seu devaneio de refazer as fronteiras do império soviético. Quando ordenou a invasão, não faz um mês, ele simplesmente achou que podia abolir a existência de uma inteira nação. Mas ele se deparou com a resistência heróica dos ucranianos, que não lhe estenderam um tapete vermelho, ao contrário do que ele delirantemente esperava, e com a incompetência do próprio exército. Que a Ucrânia apague da sua Constituição o artigo que prevê a entrada na Otan, isso não fará a menor diferença prática. O que ela não pode fazer de jeito nenhum é renunciar a ter um exército.

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Mario Sabino

Mario Sabino é jornalista, escritor e sócio-fundador de O Antagonista. Escreve sobre política e cultura. Foi redator-chefe da revista Veja.

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