Samuel Feldberg na Crusoé: O dilema dos aiatolás
Se o regime flexibilizar regras, será visto como fraco. Se aumentar a repressão, alienará ainda mais a população
Um dos mitos formadores da mitologia persa conta a história de Zahhak, o tirano árabe de cujos ombros cresciam duas serpentes insaciáveis.
Elas têm de ser alimentadas diariamente com os cérebros de dois jovens até que um ferreiro, que teve 17 filhos sacrificados, decide lutar pelo último e se rebela arregimentando a população.
Seu avental de raspa de couro transforma-se em uma bandeira revolucionária.
É esta luta que está sendo lembrada agora, com Zahhak sendo equiparado ao aiatolá Ali Khamenei e a bandeira, com o leão como escudo sendo içada, em oposição ao governo.
Este governo fundamentalista islâmico do Irã enfrenta as maiores manifestações populares desde que tomou o poder, em 1979.
Os revolucionários, que na época eram considerados moderados, rapidamente mostraram a sua verdadeira face e transformaram um país laico e moderno em um estado semifalido, com hiperinflação e altíssimos níveis de pobreza.
Os atuais protestos vêm na esteira de crises em anos anteriores, agora turbinados pela derrota iraniana frente aos israelenses e americanos na chamada Guerra dos Doze Dias de 2025.
Os bombardeios nas instalações nucleares e centros militares geraram a percepção por parte da população de que o regime não é tão poderoso e invulnerável quanto se fazia crer.
E certamente têm peso as declarações e ações do presidente Donald Trump, responsável em seu primeiro mandato pela eliminação de Qassem Soleimani, o todo poderoso líder da Guarda Revolucionária. No início deste ano, Trump ainda ordenou o sequestro do ditador Nicolás Maduro da Venezuela.
Mas Soleimani foi eliminado no exterior e o Irã não é a Venezuela, nem está no quintal dos Estados Unidos.
O governo dos aiatolás enfrenta um severo dilema: quando flexibiliza suas regras, pode estar dando um sinal de fraqueza, como ocorreu com as reformas de Gorbachev na União Soviética.
E, quando reage com violência, hostiliza e aliena ainda mais a população civil, correndo o risco de deserção dos mesmos elementos que têm de impor a ordem.
Assim como na…
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