Saída dos EUA do IPCC aumenta incerteza sobre dados climáticos
Monitoramento global de gases e precisão dos próximos diagnósticos sobre o aquecimento global ficam comprometidos, diz pesquisadora
O governo dos Estados Unidos oficializou sua saída do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC). Com a decisão, o país se desvincula de uma rede de 195 nações, dedicada em avaliar evidências e dados ambientais.
A matemática brasileira Thelma Krug aponta que o conhecimento técnico se torna menos preciso sem o aporte americano. Ela serviu como vice-presidente do órgão entre os anos de 2015 e 2023. Para a especialista, “quem perde mais são os cientistas americanos, quem perde mais é a ciência mundial”.
O IPCC foi estabelecido em 1988 com a função de compilar e analisar pesquisas já publicadas. O órgão não realiza experimentos próprios, mas extrai conclusões do material disponível.
Lacunas no monitoramento e produção de dados
A administração de Donald Trump suspendeu a operação de satélites e observatórios de gases de efeito estufa. Esses sistemas coletavam informações atmosféricas há várias décadas. A interrupção dessas missões pode comprometer a continuidade de séries históricas de dados.
Krug afirma que a falta de observações diretas gera imprecisão nos resultados finais do painel. Segundo ela, “partir do instante em que deixa de ter muitas publicações, vai ficando mais incerto [o conhecimento científico], que eu acho que é isso que o Trump quer”.
A linguagem do IPCC utiliza uma escala técnica para expressar o grau de confiança nas descobertas. Os termos variam de “virtualmente certo” a “excepcionalmente improvável”. A ausência de fontes americanas pode mover as conclusões para faixas de menor certeza.
Mercedes Bustamante, professora da UnB, adverte sobre a velocidade de desmonte das redes científicas. Ela explica que “os últimos 30 anos, sobretudo com o IPCC, foram de uma cooperação científica muito importante na constituição de redes de monitoramento, na comparação de modelos”.
A especialista indica que essas estruturas levam tempo para serem consolidadas. O próximo relatório abrangente da instituição deve ser concluído em 2029. O impacto imediato pode ser limitado, mas o cenário futuro indica riscos pela desestruturação de órgãos oceanográficos.
A representatividade das Américas nos relatórios também sofre ameaças. A produção científica na América do Sul apresenta dificuldades de volume regional. Parcerias com pesquisadores dos EUA ajudavam a preencher vácuos de publicações sobre o continente.
Desafios para o financiamento e a governança
Cerca de 50 cientistas americanos foram selecionados para a elaboração do próximo ciclo de documentos. O financiamento para a participação de especialistas de países desenvolvidos provém de suas próprias instituições. Sem o apoio federal, o custeio de viagens torna-se incerto.
Pesquisadores vinculados a agências federais como a Nasa podem enfrentar restrições orçamentárias. Existe o receio de que instituições privadas evitem financiar participações em um órgão não reconhecido pelo governo. O IPCC possui um fundo apenas para países em desenvolvimento.
A Academia Brasileira de Ciências e a SBPC emitiram nota sobre o caráter coletivo da atividade científica. As entidades afirmaram que “a ciência é, por natureza, um empreendimento cooperativo”. O enfraquecimento desses espaços compromete a legitimidade das decisões globais.
A ausência nas plenárias retira dos Estados Unidos o direito de voto e de revisão dos textos. As minutas dos relatórios precisam de consenso entre todas as nações membros. Sem representação, o país deixa de influenciar os termos utilizados nos documentos finais.
Thelma Krug observa que a equipe técnica americana costumava ter alto nível de colaboração. Ela avalia que “os Estados Unidos são os maiores perdedores nessa história, perdem a chance de contribuir, mesmo que não tenham um alinhamento com as conclusões”.
Bustamante sugere o uso de ferramentas remotas para manter a viabilidade das reuniões: “Vamos ter que usar a criatividade que sempre utilizamos para lidar com essas dificuldades”.
A conjuntura política internacional, marcada por investimentos militares, dificulta a colaboração entre Estados. Krug indica que as parcerias governamentais foram substituídas por posturas isolacionistas. De acordo com ela, “antes, você contava muito com as parcerias entre os governos. Isso não existe mais”.
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