Queda de Maduro expõe os limites da China
Venezuela mostra que apoio financeiro da China não garante proteção política quando interesses maiores entram em jogo
A captura de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos provocou um efeito imediato muito além de Caracas, deixou a China exposta.
Pequim vinha sendo o principal fiador externo do regime venezuelano, com empréstimos, compras de petróleo e discurso político, mas reagiu com cautela e apenas palavras diante da ação militar americana que evidenciou os limites da sua influência no continente.
Autoridades chinesas evitaram defender Nicolás Maduro diretamente e preferiram criticar o que chamaram de postura de juiz do mundo adotada por Washington, pedindo a soltura imediata do ditador e sua esposa.
A mensagem foi calculada, dura na embalagem, e só, rejeitando a operação americana, mas também sinaliza que está longe de ter disposição de pagar o preço de um confronto aberto para proteger um aliado enfraquecido.
O silêncio prático contrastou com anos de retórica sobre parcerias estratégicas e respeito à soberania.
Os laços entre China e Venezuela sempre tiveram menos ideologia do que pragmatismo. Em troca de empréstimos bilionários, Pequim garantiu acesso a petróleo pesado, muitas vezes com condições vantajosas e pouca transparência e com ajuda iraniana, como dissemos ontem aqui.
Nos últimos anos, porém, atrasos, queda ainda maior da produção e sanções tornaram o negócio menos atraente e, ao que tudo indica, a China já vinha recalculado sua aposta antes mesmo da captura de Maduro, com empresas chinesas reduzindo a presença no país tratando Caracas mais como um risco do que como ativo.
A operação americana só escancarou essa mudança.
Manter distância agora ajuda a preservar interesses maiores, como as relações comerciais com os Estados Unidos, e a estabilidade em outros pontos do mundo e na própria América Latina, onde sua presença é mais importante.
O episódio também serve de alerta para outros governos que contam com Pequim como contrapeso automático a Washington: a China prefere evitar envolvimento direto nas crises dos outros se o custo político e econômico superar os ganhos.
No discurso, defendeu a não intervenção. Na prática, como é característico do país, foi pragmática e avalia com frieza onde vale a pena insistir e quando é melhor mudar de alvo.
Pequim observa à distância essa nova fase incerta, mesmo que a relação entre Venezuela e China, no tocante ao petróleo, deva continuar, como Trump já deu a entender, mas agora sob sua tutela e sem garantias.
O que ficou claro para o mundo que é que a influência financeira chinesa não se traduz necessariamente em proteção política quando o tabuleiro muda rápido demais.
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