“Precisamos discordar melhor, não menos”
O cientista social americano Arthur Brooks propõe amar os inimigos para neutralizar o desprezo político após o assassinato de Charlie Kirk
“Ninguém é convencido pelo ódio”, afirmou Arthur Brooks diante de milhares de pessoas na Utah Valley University, em Orem, Utah.
Para o professor de Harvard e autor de best-sellers, a saída para a polarização política e para a violência é simples e radical: amar os inimigos.
Ele sustenta que o maior perigo não é a raiva, mas o desprezo.
Raiva pode coexistir com vínculos fortes; desprezo destrói relações. “Combinar raiva e nojo gera a convicção da inutilidade do outro”, disse, explicando que esse padrão corrói casamentos, amizades e a vida pública.
O psicólogo John Gottman, especialista em casais, aparece como referência.
Segundo Brooks, ele consegue prever divórcios com base em “olhares de desdém e sarcasmo”. Essa dinâmica, afirma, descreve o clima político nos Estados Unidos, marcado por rupturas crescentes entre vizinhos e compatriotas.
O conceito de assimetria de atribuição de motivo reforça a análise. Cada lado acredita agir por amor, enquanto o outro age por ódio. Brooks lembra que essa crença sustenta guerras civis, genocídios e conflitos étnicos, além de dividir progressistas e conservadores americanos desde 2014.
Ele recorda uma conferência conservadora em que políticos chamaram esquerdistas de “estúpidos e maus”. Interrompeu sua própria palestra para dizer que rivais são “vizinhos e parentes” e que “ninguém jamais foi persuadido por insultos”. A única ferramenta eficaz, acrescentou, é o amor.
Coragem moral, ensina, é enfrentar os próprios aliados em defesa de quem pensa diferente. A lição veio de seu pai: “coragem é enfrentar os seus, em favor dos que discordam”. Brooks aplica o princípio à própria família, liberal e democrata, cuja formação cristã lhe transmitiu a noção de dignidade sem exceções.
Ele rejeita soluções baseadas em civilidade ou tolerância, que considera superficiais. “Se eu dissesse que meu casamento é civil, você diria que preciso de terapia”, ironizou. O padrão adequado, afirmou, é o amor ativo, capaz de abrir espaço para confiança e debate honesto.
O dalai-lama ilustra o argumento. Exilado do Tibete desde 1959, ele reza todos os dias pelos líderes chineses. “Não importa como você se sente, mostre cordialidade”, aconselhou a Brooks. Para o líder budista, desejar o bem dos adversários impede que o ódio envenene a alma.
Brooks também citou experiências pessoais.
Em 2006, após publicar um livro sobre caridade, recebeu um e-mail de 5 mil palavras repleto de insultos. Respondeu com gratidão pelo tempo de leitura. Minutos depois, recebeu convite para jantar em Dallas. “Respondi ódio com amor, e isso me mudou”, disse.
O discurso recuperou ainda a fala de 2002 de Russell M. Nelson, presidente de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias: “o ódio entre irmãos e vizinhos reduziu cidades sagradas a lugares de tristeza”. Para Brooks, a frase ecoa na tragédia recente no campus.
“Não precisamos discordar menos, precisamos discordar melhor”, declarou. O objetivo é preservar a competição de ideias sem permitir que o desprezo transforme adversários em inimigos permanentes.
Ele encerrou com a lembrança de uma placa vista em uma igreja: “você está entrando no campo missionário”.
Pediu que os ouvintes imaginassem a mesma mensagem ao deixar o campus marcado pelo crime, transformando o luto em missão cívica de amar os inimigos e reconstruir o debate público.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (1)
Liana
30.09.2025 11:58Excelente!