O que Trump pode fazer no Irã?
Protestos no Irã colocam Trump diante de escolhas limitadas entre sanções, ataques militares e coordenação com aliados
A suspensão dos canais diplomáticos entre autoridades americanas e iranianas após as prisões e mortes de milhares de manifestantes, conforme reportado pela Reuters, coloca Donald Trump diante de um dilema.
Se a Casa Branca diz apoiar protestos contra a República Islâmica, como Trump tem declarado publicamente, as opções reais para ajudar quem enfrenta o regime são limitadas, caras e cheias de efeitos colaterais.
Uma primeira frente é a pressão econômica direta.
As tarifas de 25% prometidas a países que mantiverem relações comerciais diretas e indiretas com o Irã foram a primeira medida anunciada. Resta ver se de fato serão implementadas e quais critérios valerão para cada um dos quase 100 países hoje sujeitos a elas.
A intenção seria secar o país islâmico de fontes de receitas, mas isso demora para fazer efeito, e tempo é algo que os manifestantes não têm.
As sanções focadas em indivíduos e instituições ligadas à repressão também entram no radar, pois ampliam o custo pessoal de comandantes e juízes, sem ampliar o impacto sobre a população.
O uso de listas mais precisas, combinadas com restrições financeiras e de viagem, poderia isolar figuras-chave do sistema.
Mas esses indivíduos, que raramente saem do Irã e não costumam ter ligações com organizações ocidentais, não teriam suas vidas práticas afetadas e sanções raramente derrubam regimes sozinhas.
Outra opção é ampliar o apoio da população à comunicação. Restaurar o acesso à internet, liberar ferramentas contra bloqueios e apoiar serviços de satélite ajuda manifestantes a se organizar e a mostrar abusos ao mundo.
Esse apoio técnico já tem sido buscado por meio da rede Starlink, de Elon Musk. É menos visível e evita confronto direto, mas o regime também dispõe de tecnologia para neutralizar parte dessas iniciativas e pune quem as utiliza.
Há também o terreno diplomático, já em curso. Mobilizar europeus e parceiros regionais para condenações coordenadas, investigações internacionais e isolamento político ampliaria a pressão, mas Trump historicamente demonstra pouco apetite por insistir em articulações diplomáticas amplas com aliados tradicionais.
Mas essa medida, mais uma vez, traria poucos resultados práticos para a população que enfrenta agora as forças do Aiatolá. Além disso, Moscou e Pequim costumam reduzir o alcance dessas iniciativas.
Por fim, a opção considerada mais drástica, diante das últimas declarações de Trump, seria o apoio explícito a uma mudança de regime, com ataques militares a alvos estratégicos do comando, estruturas militares e de repressão do país.
Só que essa escolha carrega riscos altos. A ajuda aberta pode dividir a oposição interna e dar argumento para repressão mais ampla. Historicamente, intervenções externas diretas costumam produzir reação nacionalista.
Além disso, traria quase a certeza de um contra-ataque iraniano a estruturas americanas espalhadas pela região, inclusive em países como Turquia, Arábia Saudita e Emirados Árabes, que já teriam sido alertados dessa possibilidade, o que pode fazer o conflito escalar na região.
E isso justamente num momento em que parte do equipamento militar dos EUA que tradicionalmente fica na região foi deslocado para o Caribe, em apoio ao palco de operações venezuelano.
Todas essas ações, inclusive a militar, não garantem a queda do regime liderado por Ali Khamenei. Elas apenas ampliam o espaço de ação dos manifestantes, que continuariam sozinhos na linha de frente, já que a possibilidade de uma ação terrestre dos EUA é praticamente nula.
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