O enigma do gelo que cresce enquanto o mundo derrete
Localizada nos montes Pamir, em grande altitude, a geleira Kon-Chukurbashi vai na direção oposta à maioria das geleiras do mundo
Entre cadeias de montanhas onde o gelo recua ano após ano, um conjunto específico de geleiras na Ásia Central, em especial a geleira Kon-Chukurbashi no Tadjiquistão, está chamando a atenção por apresentar sinais de crescimento em plena era de aquecimento global.
Por que a geleira Kon-Chukurbashi é considerada um caso raro?
Localizada nos montes Pamir, em grande altitude, a geleira Kon-Chukurbashi vai na direção oposta à maioria das geleiras do mundo, que encolhem desde o final do século XX.
Enquanto muitas desapareceram ou reduziram bastante de tamanho, essa geleira mostra aumento de massa de gelo.
Pesquisadores sugerem que uma combinação de baixas temperaturas locais, grande precipitação de neve e padrões atmosféricos específicos da região explica sua resiliência.
A altitude extrema ajuda a manter temperaturas abaixo de zero por mais tempo, reduzindo o derretimento nas partes mais baixas.

Como o clima dos montes Pamir influencia essas geleiras?
As geleiras dos Pamir, em geral, mostram-se mais resistentes que outros de altas montanhas não polares, devido à circulação de ar frio e às massas de ar úmido que atingem a região.
Pequenas variações nesses elementos podem favorecer maior acumulação de neve nas áreas de origem do gelo.
Esse contexto regional não elimina riscos, mas indica um comportamento diferenciado ligado à geografia, à altitude e à dinâmica atmosférica local, que permite que alguns “rios de gelo” se mantenham mais estáveis apesar do aquecimento global.
Como os cientistas estudam o gelo preservado no Kon-Chukurbashi?
Para entender o clima passado e presente, pesquisadores perfuram núcleos de gelo (ice cores), cilindros que podem atingir mais de cem metros de profundidade.
No Kon-Chukurbashi, estima-se que esses registros preservem cerca de 30 mil anos de história climática.
Cada camada de neve compactada guarda bolhas de ar, poeira, resíduos de erupções vulcânicas e variações químicas.
A análise desse material permite reconstruir mudanças de temperatura, episódios de seca, períodos de intensa precipitação e alterações na composição da atmosfera.

Como funcionam as expedições científicas às geleiras dos Pamir?
As expedições envolvem logística complexa, uso de helicópteros, caminhadas em terreno instável e transporte cuidadoso de brocas especiais e caixas térmicas.
As equipes internacionais dividem tarefas entre perfuração, coleta e conservação imediata dos cilindros de gelo.
Os pesquisadores seguem uma série de etapas para garantir a integridade dos registros obtidos nessas áreas remotas:
- Acondicionamento dos blocos de gelo em bandejas dentro de caixas refrigeradas, sempre abaixo de zero grau.
- Transporte rápido para laboratórios equipados, muitas vezes em outros continentes, para análises físicas e químicas.
- Armazenamento de longo prazo em instalações muito frias, como depósitos na Antártica, para preservar o arquivo ambiental.
Quais sinais o gelo do Kon-Chukurbashi já revelou até agora?
Durante campanhas recentes, cientistas observaram que, a partir de certa profundidade, o gelo apresenta grande concentração de partículas de poeira e mudança de coloração nos metros finais.
Esses padrões sugerem períodos de intensa atividade de tempestades de areia e fases climáticas mais secas.
Esses registros indicam que a geleira atravessou ciclos ambientais marcantes ao longo de milênios, associados a variações na vegetação, na circulação atmosférica e na disponibilidade de umidade na Ásia Central.
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