No mundo de Trump, os números são pontos de vista
Presidentes com espírito democrático não gostam da verdade, quando ela contraria suas versões; presidentes para quem a democracia é só uma das alternativas, gostam menos ainda
Donald Trump não é um presidente para quem os fatos são indiscutíveis. A rigor, nem mesmo os números lhe parecem exatos – quando apresentam versões diferentes do que ele acredita serem os fatos. Há gente preocupada nos EUA.
Uma série de intervenções têm gerado incerteza sobre a integridade e a independência das estatísticas econômicas americanas. Os movimentos, que se intensificaram após a divulgação de um relatório de empregos avaliado como insatisfatório pelo governo, terminaram na destituição de Erika McEntarfer, chefe do Bureau of Labor Statistics (BLS), e em uma tentativa de remover Lisa Cook do conselho de governadores do Federal Reserve.
Nem Lula, aqui no Brasil, chegou a tanto. As medidas do republicano são uma afronta direta à autoridade e à independência dos órgãos institucionalmente responsáveis pela coleta e disseminação de informações para a análise da economia americana. Trump classificou os dados de emprego como “falsos” – sem provas isso –, e marcou um ponto de inflexão na relação entre a Casa Branca e as entidades oficias produtoras de dados.
O Bureau of Labor Statistics, por exemplo, é a agência primária responsável pelo monitoramento de indicadores como emprego, salários e inflação. As investidas políticas contra essas instituições, tradicionalmente percebidas como apolíticas, levantaram sérias preocupações acerca da sua capacidade de operar sem interferências.
Implicações na autonomia institucional e na qualidade dos dados
A substituição de um dirigente do BLS por um indivíduo alinhado ao governo, à primeira vista, pode não representar uma alteração substancial na metodologia de coleta de dados, dada a estrutura robusta e a equipe técnica profissional da agência. No entanto, a problemática transcende uma única mudança de pessoal.
A administração Trump vem adotando uma série de medidas que sistematicamente fragilizaram a qualidade e a independência dos dados econômicos dos Estados Unidos. Um nome leal ao governo chegou a aventar a possibilidade de suspender a divulgação mensal dos dados de emprego, um dos indicadores mais acompanhados da economia americana.
A falta desse relatório privaria milhões de cidadãos de uma ferramenta essencial para compreender a trajetória econômica do país. Adicionalmente, centenas de conjuntos de dados governamentais e mais de oito mil páginas de internet foram removidos, resultado da demissão de funcionários responsáveis pela sua manutenção. Estes dados, financiados por contribuintes e indispensáveis para a pesquisa, estão agora em risco de desaparecimento, motivando iniciativas acadêmicas como o “Data Rescue Project” para sua preservação.
Agências de estatísticas econômicas fundamentais, como o BLS, tiveram seus quadros de pessoal reduzidos. Essa diminuição implica menos levantamentos, atualizações mais lentas e uma maior dependência de estimativas, culminando em dados menos precisos.
A ironia está na argumentação governamental de que os dados seriam não confiáveis, justificando ataques e demissões, quando, na verdade, essa imprecisão era uma consequência direta dos cortes orçamentários impostos pela própria administração.
Configura-se um dilema político: desmantelar a agência para então atribuir-lhe a deterioração da qualidade resultante do subfinanciamento.
O mercado reage; fontes alternativas de informação
A disponibilidade de dados de alta qualidade é um pilar para a formulação de políticas públicas eficazes. O Federal Reserve, por exemplo, analisa minuciosamente os relatórios de emprego do BLS e os números de inflação para determinar as taxas de juros nos EUA. O Índice de Preços ao Consumidor (IPC), um indicador de inflação amplamente observado, serve como referência para a meta de 2% de inflação do banco central, o que significa que a precisão do IPC influencia diretamente a qualidade das decisões sobre as taxas de juros.
Os mercados financeiros também demonstram uma sensibilidade acentuada aos relatórios estatísticos governamentais. Os mercados de ações e títulos dos EUA, que movimentam trilhões de dólares, reagem aos anúncios sobre emprego e inflação. Alguns operadores institucionais, como fundos de hedge, já há tempos se beneficiam do acesso a dados de qualidade superior. Utilizam, por exemplo, imagens de satélite para monitorar estacionamentos de grandes varejistas, prevendo vendas trimestrais antes da divulgação oficial.
Um recente estudo acadêmico investigou a potencial substituição de dados oficiais por dados privados de satélite. Analisando a precificação do petróleo bruto nos EUA e a manufatura chinesa, a pesquisa indicou que dados de satélite são tão empregados por operadores que os mercados deixaram de reagir aos relatórios governamentais, como as pesquisas semanais de estoques de petróleo. Contudo, existem ressalvas: nem todos os tipos de dados macroeconômicos sustentam mercados de trilhões de dólares como o petróleo, o que justificaria o alto investimento em análises detalhadas.
Além disso, o acesso a esses dados alternativos é restrito a um pequeno grupo de investidores com recursos substanciais, dispostos a arcar com os elevados custos. Empresas como Privateer ou RS Metrics fornecem dados de imagens de satélite a preços proibitivos para a maioria dos participantes do mercado. Essa disparidade no acesso às informações pode comprometer a equidade do mercado.
Embora os avanços em inteligência artificial e a comercialização do espaço tornem os dados de satélite mais acessíveis, eles ainda estão distantes de substituir as estatísticas públicas geradas por levantamentos manuais sobre inflação e mercado de trabalho, que beneficiam a todos, e não apenas aqueles que podem custear seu acesso.
Presidentes com espírito democrático já não costumam gostar da verdade, quando ela contraria suas versões; presidentes para quem a democracia é só uma das alternativas, gostam menos ainda.
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