Mentor de massacre em escola de SP vai a julgamento em Portugal
Jovem português é acusado de ter coordenado, via redes sociais, o ataque que matou uma adolescente em Sapopemba, SP, em 2023
Um português de 18 anos começou a ser julgado nesta quinta-feira, 19, no tribunal de Santa Maria da Feira, no distrito de Aveiro, acusado de ter instigado, por meio de plataformas digitais, um atentado a tiros em uma escola de São Paulo.
O crime ocorreu em 23 de novembro de 2023, quando um adolescente de 16 anos abriu fogo contra quatro colegas no colégio em que estudava, no bairro de Sapopemba, na zona leste da capital paulista. Três ficaram feridos. Giovanna Bezerra da Silva, de 17 anos, morreu.
A audiência correu a portas fechadas. O réu, que atuava sob o pseudônimo Mikazz nas redes sociais, optou por permanecer em silêncio. Seu advogado, Carlos Duarte, admitiu a participação do cliente num grupo online, mas negou o protagonismo: “Ele fez parte de um grupo, mas nunca liderou esse grupo”.
Organização hierarquizada e transmissões ao vivo
O Ministério Público português, sob a coordenação da procuradora Felismina Carvalho Franco, descreve o réu como líder de uma organização estruturada na rede social Discord, identificada como “The Kiss”, ou “TKS”. O grupo incentivava atos de violência contra pessoas e animais, filmados e transmitidos ao vivo para os demais integrantes. O ataque de Sapopemba foi exibido em tempo real para os membros.
A hierarquia interna usava terminologia em alemão: o posto máximo, ocupado por Mikazz, era chamado de “gotter” ou “fuhrer” – respectivamente, deus e líder. Abaixo dele estavam os “kills”, responsáveis por executar as ordens, seguidos pelos “súditos” e “inferiores”. A ascensão na hierarquia era obtida pela prática e transmissão de atos de tortura, automutilação ou massacre.
Para se aproximar dos adolescentes brasileiros com quem se comunicava pelo outro lado do Atlântico, o réu passou a incorporar gírias do português do Brasil, como “bagulho”, “botar fé”, “suave” e “papo reto”.
Provas digitais e outros casos investigados
Durante a primeira audiência, a Promotoria apresentou elementos obtidos nos equipamentos apreendidos com o acusado: mais de 200 arquivos com conteúdo de pornografia infantil. O material reforça o conjunto de acusações que, além da incitação ao crime, inclui envolvimento com produção e posse de abuso sexual de menores.
O réu é investigado ainda por suposto envolvimento em outros três episódios no Brasil que, segundo as autoridades, foram impedidos pela polícia antes de se concretizarem. Os casos envolvem adolescentes de Minas Gerais, do Espírito Santo e do próprio bairro de Sapopemba, em São Paulo – todos portando facas no momento da abordagem policial.
A motivação atribuída pelo Ministério Público é a busca por notoriedade para o grupo. Preso em caráter preventivo desde maio de 2024, o acusado responde por crimes que, se confirmados pelo júri, podem resultar em pena de até 25 anos de prisão.
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