Israel: projeto ameaça oração mista no Muro das Lamentações
Projeto de parlamentar quer dar controle do local sagrado ao Rabinato Chefe; medida opõe governo a movimentos judaicos não ortodoxos
O Knesset, parlamento israelense, aprovou nesta quarta-feira, 25, um projeto de lei que transfere ao Rabinato Chefe o controle sobre todas as seções do Muro das Lamentações, incluindo a área destinada ao culto misto. O texto foi aprovado por 56 votos a favor e 47 contra, e pode inviabilizar o uso do espaço por correntes judaicas não ortodoxas.
A iniciativa é de autoria do deputado Avi Maoz, da ala mais conservadora do parlamento. Pelo documento aprovado em primeira leitura, qualquer prática religiosa fora das normas estabelecidas pelo rabinato passaria a ser classificada como “profanação”. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu não estava presente durante a votação.
O que está em jogo
O Muro das Lamentações, localizado na Cidade Velha de Jerusalém, território ocupado por Israel desde 1967, é o remanescente do Segundo Templo destruído pelos romanos, e o local mais sagrado em que o rabinato autoriza a oração judaica.
O espaço é dividido em três seções: uma destinada aos homens, outra às mulheres e uma terceira de uso compartilhado, a Ezrat Yisrael, que não tem o reconhecimento do rabinato israelense, dominado pelos ultraortodoxos.
Os movimentos Reformista, Conservador e Masorti – minoritários em Israel, mas com forte presença entre judeus nos Estados Unidos – utilizam a área mista e há anos denunciam dificuldades de acesso e inadequação do espaço. Para essas correntes, o reconhecimento da área representa legitimidade institucional dentro do judaísmo.
Uma disputa que se arrasta por décadas
Em 2016, o governo Netanyahu firmou um acordo para ampliar e melhorar a área mista, movimento interpretado como gesto à comunidade judaica americana. Em 2017, o governo recuou sob pressão dos aliados ultraortodoxos da coalizão. Desde então, a seção existe formalmente, mas nunca foi desenvolvida.
Na semana anterior à votação desta quarta-feira, a Suprema Corte israelense ordenou ao governo e à prefeitura de Jerusalém que dessem andamento aos planos de desenvolvimento da área, há muito atrasados. O projeto de lei aprovado em primeira leitura surge, portanto, em direta contraposição à determinação judicial.
O projeto ainda precisará passar por leituras adicionais antes de ser convertido em lei.
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