Houthis anunciam bloqueio naval contra a Arábia Saudita
Grupo apoiado pelo Irã amplia confronto no Oriente Médio e amplia riscos ao escoamento de petróleo pelo Mar Vermelho
O grupo terrorista houthi, que controla parte do Iêmen, declarou nesta segunda-feira, 20, um bloqueio marítimo contra a Arábia Saudita. A decisão foi comunicada pelo porta-voz militar do grupo, Yahya Saree, em vídeo divulgado à imprensa, e representa resposta a restrições impostas por Riad a portos e aeroportos sob domínio houthi, além de um ataque ao aeroporto de Sanaa na semana anterior.
O episódio agrava a instabilidade regional já provocada pela retomada do conflito entre Estados Unidos e Irã e pelo fechamento parcial do Estreito de Ormuz.
Segundo o comunicado, Saree afirmou que a organização impôs “um bloqueio marítimo contra o inimigo saudita criminoso, com base na lógica de ‘olho por olho’, com efeito imediato a partir da emissão desta declaração”. Ele acrescentou que qualquer nova ação saudita seria enfrentada “com uma escalada abrangente e decisiva”.
Escalada após período de trégua
O anúncio ocorre depois de mais de uma semana de reaquecimento das hostilidades no Iêmen, país cujo conflito interno permanecia praticamente estagnado desde um acordo de cessar-fogo firmado em 2022. A guerra civil iemenita opõe os houthis, que tomaram a capital Sanaa em 2014, ao governo internacionalmente reconhecido, sediado no porto de Aden e apoiado pela Arábia Saudita.
A trégua foi rompida na semana passada, quando as autoridades iemenitas informaram ter bombardeado o aeroporto de Sanaa para impedir o pouso de uma aeronave iraniana que transportava uma delegação houthi.
Em retaliação, o grupo lançou mísseis contra o aeroporto da cidade saudita de Abha. Os houthis atribuem a responsabilidade pelo ataque à coalizão liderada pela Arábia Saudita, que há mais de dez anos exige autorização prévia para o tráfego aéreo no espaço iemenita.
O Irã mantém os houthis como parte de sua rede regional de aliados, o chamado “Eixo de Resistência”, que também reúne o Hezbollah libanês, o Hamas palestino e milícias xiitas do Iraque.
Ainda assim, os laços entre Teerã e o grupo iemenita são descritos como menos estreitos do que os mantidos com essas outras forças, e os houthis negam atuar como representantes diretos dos interesses iranianos, afirmando produzir seu próprio armamento.
Ameaça ao fluxo de petróleo
A medida anunciada nesta segunda-feira aumenta a preocupação com o abastecimento internacional de petróleo, porque território iemenita se estende ao longo do estreito de Bab el-Mandeb, passagem que conecta o Mar Vermelho ao Golfo de Áden e funciona como alternativa logística desde que o Irã restringiu a navegação pelo Estreito de Ormuz, após ataques israelenses e norte-americanos ocorridos em 28 de fevereiro.
Com Ormuz parcialmente inoperante, os sauditas passaram a direcionar mais de 70% de suas exportações diárias de petróleo bruto por meio de um oleoduto até o porto de Yanbu, no Mar Vermelho. Dali, os carregamentos seguem para o Canal de Suez, em direção à Europa, ou para o sul, rumo à Ásia, atravessando justamente o estreito de Bab el-Mandeb.
Um eventual fechamento dessa rota implicaria a interrupção simultânea dos dois principais corredores de exportação energética do Oriente Médio, com impacto direto sobre os embarques destinados ao mercado asiático. Ainda não há definição sobre como o bloqueio seria efetivamente implementado, nem se incluirá ataques diretos a embarcações comerciais.
O volume de petróleo transportado por Bab el-Mandeb somou 7,4 milhões de barris diários em junho, o equivalente a cerca de 7% da produção mundial — alta em relação aos 4,2 milhões de barris registrados no mesmo período do ano anterior. Esse aumento vinha amortecendo, em parte, a alta nos preços globais de energia provocada pela crise em Ormuz.
Grupo evitou confronto direto até agora
Diferentemente de outros aliados do Irã, como o Hezbollah e milícias iraquianas, que se envolveram no conflito com Estados Unidos e Israel desde seu início, com ataques de mísseis e drones, os houthis haviam mantido postura discreta nos meses recentes.
O grupo também já havia atacado navios no Mar Vermelho e no Golfo de Áden durante a guerra em Gaza, obrigando embarcações a realizar desvios pela costa africana.
Segundo a DW, ainda não é possível determinar se a atual postura do grupo em relação ao Mar Vermelho reflete estratégia própria ou orientação vinda de Teerã. A Arábia Saudita não se pronunciou publicamente sobre o bloqueio anunciado.
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