Homem de 35 anos é o único habitante de um observatório mítico abandonado no meio da estepe patagônica: “Eu entrei em autoexílio”
Símbolo de um passado científico do que centro de pesquisa ativo, o lugar ganhou novo sentido com a presença de Javier Soto
A história do Observatório Austral Félix Aguilar, perdido na estepe patagônica às margens da Ruta 40 e próximo ao rio La Leona, revela como ciência, isolamento e memória familiar se cruzam em um mesmo ponto do mapa: hoje mais símbolo de um passado científico do que centro de pesquisa ativo, o lugar ganhou novo sentido com a presença de Javier Soto, que decidiu viver ali em retiro.
O que é o Observatório Austral Félix Aguilar
O Observatório Austral Félix Aguilar nasceu do desejo de mapear melhor o céu do hemisfério sul em uma época em que essa região era pouco estudada.
A iniciativa foi proposta na década de 1930 por Félix Aguilar, então diretor do Observatório de La Plata, que escolheu o paraje La Leona pela latitude favorável e pelo afastamento de grandes centros urbanos.
Construir o observatório de La Leona foi uma epopeia logística e humana em plena Patagônia.
Tijolos eram produzidos no local, a mão de obra era escassa e o transporte de materiais enfrentava frio, ventos fortes, neve e estradas de rípio; em 1951 o prédio central ficou pronto, mas partes do projeto, como a usina elétrica própria, nunca chegaram a ser concluídas.

Como funcionou o observatório na prática
O funcionamento regular da estação se consolidou apenas nos anos 1960, com a inauguração oficial em 1960 e o início das observações sistemáticas em 1965.
O objetivo principal era medir com precisão coordenadas de estrelas próximas ao polo sul celeste, usando instrumentos de alta precisão para a época, como o Círculo Meridiano Repsold.
Problemas técnicos e ambientais limitaram o projeto desde o início, com equipamentos que demoravam a ser instalados e um clima pouco previsível.
A proximidade do rio La Leona gerava nebulosidade frequente, com cerca de 80 noites totalmente limpas por ano, o que reduzia o ritmo de observações até o encerramento definitivo da estação em 1973.
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"Decidí aislarme del mundo" dice Javier Soto, un ermitaño de 35 años que vive solo en un viejo observatorio abandonado al sur de Santa Cruz y a un costado de la ruta 40. "Incio una búsqueda espiritual muy profunda"
— Leandro Vesco (@leandrovesco) January 10, 2026
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Quem preserva o legado científico e cultural
Após o fechamento, o Observatório Austral Félix Aguilar entrou em abandono, sofrendo com clima extremo e vandalismo.
A partir de 1998, o lonco mapuche (Chefe de comunidade indígena) Ramón Epulef, tio de Javier Soto, passou a ocupar e recuperar parte do complexo, tornando-se guardião informal do patrimônio científico até obter o reconhecimento jurídico da posse pela usucapião.
Com a morte de Epulef em 2023, o cuidado diário do lugar passou a Javier Soto, que optou por uma vida isolada no antigo observatório.
Ele vive com cães, energia limitada de placas solares, internet via satélite e água do rio para uso doméstico, mantendo também a memória da tumba do tio em um cerro próximo, considerada sagrada pela família.

Como é a vida cotidiana no antigo observatório
A rotina de Javier combina isolamento extremo e contato ocasional com viajantes que percorrem a Ruta 40.
Ele adaptou a cúpula metálica e o prédio principal como moradia simples, exposta aos ventos constantes e às variações bruscas de temperatura típicas da província de Santa Cruz.
- Uso de água do rio La Leona para cozinhar e limpar, com água potável trazida de El Calafate.
- Energia gerada por poucas placas solares, suficiente para iluminação básica e comunicação.
- Recepção de turistas curiosos, que ajudam com suprimentos e ouvem relatos sobre o antigo observatório.

Por que o observatório ainda desperta interesse
Mesmo desativado, o antigo observatório de La Leona segue atraindo visitantes interessados em ciência, arquitetura e histórias de isolamento.
A cúpula metálica solitária na paisagem árida virou ponto de parada na Ruta 40, e há propostas para que o local seja declarado Monumento Histórico Nacional, ainda sem decisão definitiva até 2025.
A presença de Javier cria um elo vivo entre passado e presente, preservando tanto a memória da pesquisa astronômica quanto as histórias das famílias que escolheram viver ali.
Entre noites estreladas, fenômenos de luz no horizonte e longos períodos de silêncio, o Observatório Austral Félix Aguilar permanece como marco singular da astronomia argentina e da história da Patagônia.
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