Bruno Soller na Crusoé: Entre o sonho libertário e o bandoneón peronista
Escândalo envolvendo Karina Milei fortalece oposição peronista na Argentina antes das eleições legislativas
“Que el mundo fue y será una porquería, ya lo sé…” — o verso célebre de Cambalache, tango de Enrique Santos Discépolo, ressoa com força neste setembro político argentino.
A poucos dias da eleição de outubro, o clima é de incerteza, tensão e reviravolta, como se a própria realidade tivesse adotado a cadência melancólica de um bandoneón.
O presidente Javier Milei, que até poucos meses parecia consolidar um caminho de reformas radicais e um apoio sólido de sua base, enfrenta agora um cenário mais áspero.
Nos primeiros meses de governo, Milei foi beneficiado por uma lua de mel incomum entre os argentinos e seu presidente.
Mesmo diante do custo de vida disparando, com tarifas reajustadas, salários comprimidos e uma inflação ainda persistente, uma parcela significativa da sociedade lhe concedeu crédito e tempo.
A narrativa de que a dor era necessária para curar décadas de desequilíbrios e privilégios ressoava — muitos cidadãos estavam dispostos a suportar o peso do ajuste em nome de uma promessa de futuro melhor.
Essa tolerância inicial se apoiava tanto no carisma teatral de Milei quanto na esperança de uma ruptura definitiva com o establishment.
Era o voto de confiança típico de quem acredita estar participando de uma mudança histórica — uma aposta arriscada, mas, até então, emocionalmente sustentada pela paciência coletiva.
Em 18 de maio, a coalizão do Libertad Avanza, alcançou um resultado marcante nas eleições para a Legislatura da Ciudad de Buenos Aires.
A lista liderada pelo seu porta-voz, Manuel Adorni, foi a mais votada com cerca de 30,1% dos votos, superando o peronismo, representado por Santoro e solapando o PRO, do ex-presidente Mauricio Macri, que detinha o poder na capital federal há quase 20 anos.
Foi um momento de grande afirmação política do presidente argentino.
Entretanto, o escândalo envolvendo Karina Millei, irmã e principal operadora política do “Peluca” (peruca) Milei, caiu como uma punhalada nessa confiança.
A denúncia de um suposto envolvimento em um esquema de corrupção na área da saúde mina a essência do mileísmo, um movimento que se declara contra a “casta” e seus vícios.
Como um tango de desencanto, a orquestra…
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