Argentina vai às urnas sob avanços econômicos e crise política
Inflação em queda e superávit histórico contrastam com desvalorização do peso, escândalos e fragilidade do governo Milei no Congresso
A Argentina entra na semana das eleições legislativas de meio de mandato em um cenário de contrastes.
O governo de Javier Milei colhe resultados econômicos inéditos em mais de uma década, mas enfrenta forte instabilidade política e cambial. O pleito de sábado, 26 de outubro, definirá se o presidente manterá poder suficiente no Congresso para sustentar sua agenda liberal.
Desde que assumiu o cargo em dezembro de 2023, Milei promoveu um ajuste fiscal profundo e reduziu drasticamente a inflação.
O índice anual caiu de 211% em 2023 para 31,8% em setembro de 2025, enquanto a inflação mensal se manteve abaixo de 2% por três meses consecutivos, algo não visto desde 2017. O país registrou ainda o primeiro superávit fiscal desde 2011, acumulando 13 meses de saldo positivo.
A pobreza também recuou. Depois de atingir 52,9% no primeiro semestre de 2024, o índice caiu para 31,6% em 2025, o menor patamar desde 2018. Os salários reais cresceram e voltaram a representar uma fatia maior do PIB que os lucros empresariais. O FMI e a OCDE elogiaram a política econômica e projetam crescimento de até 5% neste ano.
Apesar desses avanços, o peso argentino sofreu forte desvalorização e atingiu 1.490 unidades por dólar, mínima histórica. O Banco Central gastou centenas de milhões de dólares em reservas para defender a banda cambial, hoje sob risco de ruptura. O apoio financeiro dos Estados Unidos, por meio de uma linha de swap de US$ 20 bilhões, também ficou condicionado à manutenção das reformas e à estabilidade política.
O clima eleitoral é desfavorável ao governo. Em setembro, o partido de Milei, La Libertad Avanza, foi derrotado na província de Buenos Aires, onde vive quase 40% do eleitorado argentino. O peronismo venceu com 47% dos votos contra 33,8% do governo, resultado interpretado como sinal de alerta para o pleito nacional.
A crise política foi agravada por denúncias de corrupção. Áudios atribuídos à irmã do presidente, Karina Milei, apontam suposto pedido de propina em contratos públicos.
A Justiça barrou a divulgação inicial das gravações, mas depois liberou o conteúdo a pedido da própria Karina. O caso desgastou o discurso anticorrupção que ajudou Milei a chegar ao poder.
O Congresso, de maioria oposicionista, também impôs derrotas inéditas. Em setembro, derrubou um veto presidencial, fato que não ocorria havia mais de vinte anos. Com apenas 38 deputados e 7 senadores, o governo depende de alianças para aprovar novas medidas econômicas.
Milei afirma que não recuará em sua estratégia de austeridade e promete acelerar as reformas.
A eleição de sábado decidirá se ele continuará com base suficiente para governar ou se enfrentará um Congresso hostil e uma economia em turbulência.
Para o Brasil, maior parceiro comercial da Argentina no Mercosul, o resultado interessa diretamente, pois influencia o comércio regional e a estabilidade financeira no Cone Sul.
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