A cidade de pedra no coração do Brasil que parou no século 18 e parece cenário de novela

11.03.2026

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A cidade de pedra no coração do Brasil que parou no século 18 e parece cenário de novela

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Turismo

A cidade de pedra no coração do Brasil que parou no século 18 e parece cenário de novela

90% do casario colonial intacto e lampiões acesos à noite: a ex-capital de Goiás que a UNESCO protege desde 2001

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A cidade de pedra no coração do Brasil que parou no século 18 e parece cenário de novela
A cidade de pedra no coração do Brasil que parou no século 18 e parece cenário de novela (imagem ilustrativa)

As luzes da rua se apagam. Quarenta farricocos encapuzados avançam com tochas entre becos de pedra, encenando a prisão de Cristo em um ritual de 280 anos. Quando a Procissão do Fogaréu termina, os lampiões voltam a acender e a Cidade de Goiás reaparece como sempre esteve: parada no século 18, intacta, às margens do Rio Vermelho.

A capital que perdeu o título e, por isso, sobreviveu

O bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva Filho, o Anhanguera, fundou o Arraial de Sant’Anna em 1727, atraído pelo ouro no sopé da Serra Dourada. Em 1739, o povoado ganhou o nome de Vila Boa de Goiás e se tornou a primeira capital da capitania. Durante quase dois séculos, a cidade concentrou poder político, igrejas barrocas e casarões de adobe, taipa e pau a pique.

Em 1937, a capital foi transferida para Goiânia por decisão do interventor Pedro Ludovico Teixeira. A mudança esvaziou a cidade. Famílias partiram, o comércio encolheu e o desenvolvimento parou. Foi exatamente esse abandono que preservou o casario original. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) tombou monumentos isolados nos anos 1950 e protegeu o conjunto inteiro em 1978. Em 16 de dezembro de 2001, a UNESCO reconheceu o centro histórico como Patrimônio Mundial.

A cidade une qualidade de vida e charme colonial, sendo um dos destinos mais emblemáticos de Goiás. // Créditos: depositphotos.com / jesper@engcrew.tv

O primeiro núcleo urbano a oeste do Tratado de Tordesilhas

Goiás foi o primeiro povoado oficialmente reconhecido além da linha do Tratado de Tordesilhas, que originalmente definia as fronteiras da colônia portuguesa. Essa posição de fronteira explica a arquitetura simplificada: sem arquitetos, mestres de ofício ou pedra-sabão em abundância, os construtores adaptaram técnicas populares ao terreno acidentado entre morros e o rio. O resultado é uma cidade que preserva mais de 90% do casario colonial original, segundo o IPHAN, com fachadas homogêneas em escala e proporção que nenhuma reforma posterior conseguiu descaracterizar.

Na margem esquerda do Rio Vermelho ficam os edifícios oficiais: a Catedral de Sant’Ana, o Palácio Conde dos Arcos (antiga sede do governo), a Casa de Câmara e Cadeia (hoje Museu das Bandeiras) e o Chafariz de Cauda, de 1778. Na margem direita, o bairro popular abriga a Igreja do Rosário, originalmente reservada aos escravizados, e a Igreja de Santa Bárbara, com vista panorâmica do vale.

Cidade de Goiás, conhecida como Goiás Velho // Créditos: depositphotos.com / Giovanni.seabra

A poetisa doceira que transformou becos em versos

Não há como falar da Cidade de Goiás sem citar Cora Coralina. Nascida Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas em 20 de agosto de 1889, quando a cidade ainda se chamava Vila Boa, Cora começou a escrever aos 14 anos. Publicou seu primeiro livro, Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais, apenas em 1965, aos 75 anos. Carlos Drummond de Andrade elogiou publicamente a obra, e em 1983 Cora recebeu o Prêmio Juca Pato, da União Brasileira dos Escritores.

A Casa de Cora Coralina, construída por volta de 1782 às margens do Rio Vermelho, funciona hoje como museu com objetos pessoais, manuscritos e fotografias. A poetisa era também doceira, e seus doces cristalizados viraram tradição local. Ela escreveu:

“Eu sou aquela amorosa de tuas ruas estreitas, curtas, indecisas, entrando, saindo uma das outras.”

A frase poderia servir de legenda para qualquer foto da cidade.

Leia também: Custo 35% menor e padrão de vida europeu: o fenômeno da capital do Nordeste que é uma das mais verdes do mundo

O que visitar na cidade que a UNESCO protege?

O centro histórico concentra a maioria das atrações em um perímetro caminhável, entre morros verdes e as duas margens do Rio Vermelho. Algumas experiências, porém, só acontecem em datas específicas.

  • Procissão do Fogaréu: realizada desde 1745, à meia-noite da quarta-feira santa. Quarenta farricocos percorrem becos com tochas enquanto as luzes da cidade são apagadas. É Patrimônio Cultural e Imaterial do Estado de Goiás desde 2023 e atrai mais de 40 mil pessoas.
  • Museu das Bandeiras: instalado na antiga Casa de Câmara e Cadeia, guarda documentos e artefatos da exploração bandeirante no Centro-Oeste.
  • Palácio Conde dos Arcos: construção do século 18 que funcionou como sede do governo. Hoje abriga exposições históricas e recebe o governador do estado uma vez por ano.
  • Igreja de São Francisco de Paula: erguida em 1761, tem pinturas rococó no forro e imagens sacras de Veiga Valle, o mais importante escultor sacro de Goiás.
  • Rio Vermelho: corta a cidade e oferece banhos, caminhadas e paisagem preservada. Passa ao lado da Casa de Cora Coralina.

Quem deseja explorar a história e o charme da primeira capital de Goiás, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Rolê Família, que conta com mais de 258 mil inscritos, onde João e sua família mostram um roteiro completo pela Cidade de Goiás, incluindo o legado de Cora Coralina e a gastronomia do Cerrado:

22 mil moradores e o ritmo que grandes cidades não conseguem oferecer

Com cerca de 22 mil habitantes, segundo o IBGE, a Cidade de Goiás funciona como um laboratório de slow living no coração do Cerrado. A temperatura média anual gira em torno de 23 °C, e a fiação elétrica do centro histórico foi enterrada para preservar a paisagem colonial. À noite, lampiões iluminam ruas onde o barulho mais alto costuma ser o do rio.

O Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (FICA) e a Mostra de Cinema de Goiás movimentam a cena cultural ao longo do ano. A cidade fica a 140 km de Goiânia pela GO-070, em trajeto de cerca de 2 horas. De Brasília, são aproximadamente 320 km.

Cidade de Goiás, conhecida como Goiás Velho // Créditos: depositphotos.com / jesper@engcrew.tv

Acenda uma tocha e caminhe pelas pedras que guardam três séculos

A Cidade de Goiás é a prova de que perder uma capital pode ser o melhor acidente de preservação. O que restou foi um cenário intocado do Brasil colonial, emoldurado por morros verdes e atravessado por um rio que ainda reflete casarões de adobe.

Suba a Serra Dourada, caminhe descalço pelas pedras do centro e entenda por que Cora Coralina nunca quis escrever sobre outro lugar.

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