Antártida deixa de ser um mistério graças a um pequeno robô
Um pequeno flutuador robótico equipado com sensores de temperatura e salinidade viajou por mais de dois anos sob as plataformas de gelo na Antártida
Um pequeno flutuador robótico equipado com sensores de temperatura e salinidade viajou por mais de dois anos sob as plataformas de gelo Denman e Shackleton, no leste da Antártida, coletando dados inéditos sobre a interação entre oceano, gelo e aumento do nível do mar.
Como o oceano interage com as plataformas de gelo na Antártida
Quando geleiras que escoam do interior da Antártida alcançam o mar, passam a flutuar e formam plataformas de gelo que funcionam como barreiras, retardando o fluxo de gelo para o oceano.
Se essas estruturas enfraquecem ou se rompem, mais gelo continental entra no mar e contribui para a elevação do nível dos oceanos.
O principal fator desse enfraquecimento é o calor levado pela água do mar até a base das plataformas, intensificando o derretimento basal.
No caso da geleira Denman, pequenas variações na espessura da camada de água mais quente sob o gelo já alteram significativamente a taxa de derretimento, tornando essa região especialmente sensível às mudanças oceânicas.
🌊 1/ A robotic float has measured the temperature and salinity from parts of the Southern Ocean never sampled before — underneath massive floating Denman and Shackleton ice shelves in East #Antarctica.
— Australian Antarctic Program Partnership (@Ant_Partnership) December 5, 2025
New in @ScienceMagazine #ScienceAdvances: https://t.co/FPF5ylMoth pic.twitter.com/UyiDNbvk9h
Por que medições sob o gelo são importantes para o nível do mar
O impacto da Antártida sobre o nível do mar global é uma das maiores incertezas em projeções climáticas, com consequências diretas para áreas costeiras densamente povoadas.
Grande parte da camada de gelo repousa sobre rocha abaixo do nível do mar, o que a torna altamente vulnerável a alterações nas massas de água ao redor do continente.
Durante anos, o leste da Antártida foi visto como relativamente estável, supostamente protegido de correntes mais quentes.
As novas medições sob as plataformas Denman e Shackleton revelam um quadro mais complexo, indicando que volumes significativos de gelo oriental podem estar expostos a águas capazes de causar derretimento intenso na base.
- Plataformas de gelo retardam o fluxo de gelo continental para o oceano.
- O calor oceânico na base controla a taxa de derretimento basal.
- Setores antes considerados estáveis mostram sinais de vulnerabilidade.
- Essas incertezas dificultam projeções precisas de aumento do nível do mar.
Como os flutuadores robóticos coletam dados sob plataformas de gelo
Perfurações no gelo para medições oceanográficas são caras, raras e restritas a poucos pontos no tempo e no espaço.
Os flutuadores autônomos da rede Argo, adaptados para operar sob gelo, conseguem registrar perfis repetidos de temperatura e salinidade ao longo de trajetórias extensas, mesmo em áreas remotas e cobertas por plataformas de gelo.

Quando estão sob o gelo, esses flutuadores continuam medindo, mas só transmitem os dados quando conseguem emergir em áreas livres.
No estudo na Antártida Oriental, o flutuador permaneceu cerca de oito meses sob Denman e Shackleton, e seu trajeto foi reconstruído ao comparar as “batidas” no teto de gelo com mapas de espessura obtidos por satélite.
Que novas informações essas medições trouxeram sobre Denman e Shackleton
Os dados indicam que a plataforma Shackleton, mais ao norte, está hoje relativamente protegida de massas de água suficientemente quentes para causar derretimento basal intenso.
Já a geleira Denman, associada a um potencial aumento de até 1,5 metro no nível médio dos mares, apresenta sinais claros de contato com água mais quente.
Essa diferença de exposição ao calor oceânico sugere comportamentos distintos entre plataformas vizinhas, reforçando a necessidade de monitorar cada região de forma específica.
Os registros obtidos fornecem o primeiro transecto completo de dados oceanográficos sob uma plataforma de gelo no leste da Antártida.
Como essas medições aprimoram projeções de aumento do nível do mar
Processos que ocorrem em uma camada de cerca de 10 metros logo abaixo da base do gelo controlam a taxa de derretimento, mas costumam ser pouco observados e simplificados em modelos.
Os dados de flutuadores ajudam a calibrar a representação da troca de calor entre oceano e gelo, reduzindo incertezas nas simulações.
Com descrições mais realistas da circulação sob as plataformas de gelo, modelos conseguem estimar melhor quanto calor chega à base, como isso varia em cenários de aquecimento global e qual a resposta esperada em termos de contribuição da Antártida para o aumento do nível dos oceanos.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)