Piscinas não matam. A economia de centavos, sim
Tragédia em piscina de academia é espelho desconfortável de uma cultura que transforma prevenção em custo
Foi preciso uma morte e duas internações graves para que o óbvio voltasse à superfície: serviço barato demais costuma sair caro demais.
Um manobrista com tarefas de zelador e acumulando o tratamento de uma piscina de uso ostensivo prova isso.
A tragédia recente em uma piscina de academia não é apenas um acidente. É um retrato. Um espelho desconfortável de uma cultura que transforma prevenção em custo, treinamento em “exagero” e manutenção em item negociável.
Condomínios fazem o mesmo todos os dias.
Discutem o valor do contrato do tratamento da piscina como se fosse assinatura de streaming. Pechincham manutenção de bombas e sistemas de filtragem. Aceitam laudos “mais ou menos”. Substituem empresas técnicas por prestadores “quase habilitados”. Tudo em nome da taxa condominial mais baixa da assembleia.
Até que algo acontece.
E quando acontece, não é apenas um problema jurídico. É humano. Irreversível. Irrecuperável.
O mercado condominial vive uma contradição crônica: quer estrutura de clube, padrão de resort e segurança hospitalar pagando preço de estacionamento rotativo.
Piscina exige controle químico rigoroso, supervisão técnica, protocolos de emergência, manutenção contínua, responsabilidade civil estruturada e profissionais qualificados. Não é luxo. É engenharia de risco.
Mas risco não aparece na planilha mensal. Só aparece no noticiário.
A cada assembleia que escolhe o fornecedor “mais barato” em vez do mais preparado, faz-se uma aposta silenciosa. Normalmente ela dá certo. Até o dia em que não dá.
E quando não dá, a pergunta muda: “quem foi o responsável?”
Mas a pergunta correta sempre foi outra: “quanto vale prevenir?”
A diferença entre um contrato caro e um contrato barato pode caber em poucas centenas de reais por unidade. A diferença entre prevenção e negligência pode caber em segundos.
Condomínios gostam de falar em valorização do patrimônio. Talvez seja hora de entender que patrimônio não é só concreto. É vida.
E vida não entra em rateio extraordinário depois que já foi perdida.
Por Rafael Bernardes, especialista em gestão condominial e fundador do Sindicolab
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