Louros selvagens usam linguagem com estrutura igual à humana e impressionam pesquisadores
Pesquisas mostram que a comunicação dos loros possui regras sintáticas e duetos complexos que podem lançar luz sobre a linguagem humana
Entre os animais que mais chamam a atenção pela forma de se comunicar, os louros ocupam uma posição peculiar. Em cativeiro, costumam ser lembrados pela imitação de palavras humanas, mas, na natureza, exibem repertórios vocais muito mais complexos do que simples cópias de sons. Estudos recentes com o loro de nuca amarela, espécie distribuída da América Central até a Costa Rica, mostram que seus duetos em ambiente selvagem podem carregar pistas relevantes sobre a evolução da linguagem em geral.
O que a comunicação dos louros revela sobre a evolução da linguagem
A expressão evolução da linguagem costuma ser associada principalmente à história da espécie humana. Porém, sistemas de vocalização elaborados em outros animais fornecem um campo de teste importante para hipóteses sobre como surgem estruturas combinatórias, semelhantes à sintaxe.
No caso do loro de nuca amarela, a espécie vive em grupos socialmente complexos, com bandos grandes à noite e formação de subgrupos durante o dia. Casais defendem territórios na época reprodutiva, o que favorece o uso de duetos vocais em contextos de defesa e coordenação social.

Como ferramentas da linguística humana ajudam a decifrar duetos de louros
Para investigar se existia uma espécie de “gramática” vocal nesses duetos, o trabalho mais recente com o loro de nuca amarela combinou gravações de campo, análise acústica minuciosa e softwares de análise textual. Cada vocalização foi transformada em um elemento de um corpus, de forma semelhante ao que se faz com palavras em um texto escrito.
Programas como o Voyant Tools, usados na linguística para encontrar padrões de coocorrência entre termos, foram adaptados para rastrear quais tipos de chamadas tendiam a aparecer juntos ou separados. Isso permitiu mapear dezenas de tipos de chamadas e suas preferências de combinação ao longo dos duetos.
Quais padrões estruturais foram identificados nos duetos dos louros
A análise estatística revelou que as chamadas não são emitidas ao acaso, mas seguem regras de organização interna. Essas regras envolvem tanto a posição das unidades dentro do dueto quanto a alternância temporal entre macho e fêmea.
Essas observações se traduzem em alguns padrões gerais de estruturação dos duetos, que ajudam a caracterizar o sistema vocal da espécie:
Em conjunto, esses resultados apontam para um sistema vocal estruturado, com regras de ordenação e alternância que lembram a lógica de uma sintaxe rudimentar. Ainda assim, trata-se de uma organização muito distinta do que se observa na fala humana.
A comunicação dos louros pode ser considerada uma linguagem completa
Ao discutir a origem e evolução da linguagem, uma questão recorrente é se sistemas como o dos louros podem ser descritos como linguagem em sentido estrito ou apenas como comunicação complexa. Pesquisadores trabalham, nesse ponto, com três níveis de análise: sintaxe, semântica e pragmática.
No loro de nuca amarela, a evidência mais sólida até o momento recai sobre o nível sintático, com regras de combinação e alternância entre parceiros.
- Há sinais de sintaxe vocal: chamadas seguem padrões não aleatórios.
- A semântica é incerta: não está claro se cada unidade significa algo específico.
- O contexto social provavelmente modula a interpretação dos duetos.
Se você quer conhecer a inteligência surpreendente dos papagaios-louros, este vídeo do canal Animal Planet Brasil, com 1,23 milhão de subscritores, foi escolhido exatamente para mostrar como essas aves aprendem, se comunicam e demonstram habilidades cognitivas impressionantes no mundo animal.
Por que os estudos com louros são importantes para entender e conservar a linguagem
Pesquisas desse tipo ajudam a situar a linguagem humana dentro de um cenário evolutivo mais amplo, no qual diferentes linhagens de vertebrados desenvolveram, de forma independente, formas avançadas de comunicação. Encontrar sintaxe combinatória em uma ave não canora, com aprendizado vocal ao longo da vida, oferece um modelo adicional para testar como regras de combinação surgem e se mantêm.
Há também um componente de conservação: o loro de nuca amarela está sob ameaça pela perda de habitat e pelo tráfico de animais silvestres. Proteger a espécie significa preservar não apenas sua diversidade genética, mas também repertórios vocais e dialetos regionais aprendidos socialmente ao longo de milhares de anos.
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