Esse concreto romano “se cura” sozinho
O interesse pelo concreto autorreparável dos romanos cresceu com novas descobertas em sítios como Pompeia e com pesquisas de instituições como o MIT
O interesse pelo concreto autorreparável dos romanos cresceu com novas descobertas em sítios como Pompeia e com pesquisas de instituições como o MIT.
Entender por que essas estruturas resistem por séculos a terremotos, água do mar e erupções interessa tanto a historiadores quanto à construção civil moderna.
O que caracteriza o concreto romano como autorreparável?
A expressão concreto autorreparável descreve a capacidade do material de fechar trincas ao longo do tempo, sem reparos externos. No caso romano, isso se deve ao método de hot-mixing, que combina cal viva seca com cinzas vulcânicas antes da adição de água.
Quando a água é incorporada, ocorre reação exotérmica intensa, elevando a temperatura interna da mistura. Formam-se assim nódulos brancos de cal, os clastos de cal, que mais tarde voltam a reagir ao contato com umidade, preenchendo microfissuras e restaurando a coesão do concreto.

Como o método de hot-mixing funciona na prática?
No hot-mixing, a cal viva não é totalmente apagada antes do uso, diferindo de muitas práticas modernas. Misturada ainda reativa às cinzas vulcânicas, ela cria zonas de alta alcalinidade capazes de responder quimicamente por décadas.
Quando surgem fissuras, a água penetra e dissolve parcialmente esses clastos de cal. Os novos produtos minerais precipitam dentro das trincas, selando-as gradualmente.
Ensaios laboratoriais recentes confirmam esse mecanismo, mostrando recuperação de permeabilidade reduzida após ciclos de fissuração controlada.
Como as descobertas em Pompeia confirmam essa tecnologia?
Em Pompeia, arqueólogos encontraram um canteiro de obras preservado, com misturas secas, paredes em execução e estruturas concluídas. Isso permitiu observar, quase em tempo real, as etapas do preparo do concreto romano.
A análise de amostras mostrou fragmentos de cal viva misturados às cinzas antes do contato com água, comprovando o hot-mixing como prática sistemática.
Estudos microscópicos também revelaram minerais formados tardiamente, preenchendo poros e microfissuras ao longo dos séculos.
Por que o concreto romano interessa à construção moderna?
A construção atual enfrenta alta emissão de CO₂ pelo cimento Portland e elevados custos de manutenção. O concreto romano inspira alternativas com maior durabilidade, menor pegada de carbono e propriedades autorreparáveis integradas.
Pesquisas buscam combinar cal, adições pozolânicas modernas e técnicas de cura que promovam recristalização lenta. Em muitos casos, cinzas de usinas, escórias e pozolanas naturais são avaliadas como substitutos funcionais das cinzas vulcânicas romanas.

Quais lições práticas o concreto romano oferece para o futuro?
Os estudos em estruturas antigas indicam que a durabilidade não depende de um único “ingrediente secreto”, mas de um conjunto de escolhas coerentes.
Entre as principais lições extraídas, destacam-se diretrizes que hoje orientam pesquisas e protótipos de concretos avançados:
- Seleção de pozolanas reativas: uso de cinzas ricas em sílica e alumina, com reação prolongada.
- Reservatórios internos de cálcio: inclusão de fases de cal capazes de reagir tardiamente com água.
- Mistura e distribuição homogênea: pré-mistura seca para garantir clastos bem dispersos.
- Projeto de porosidade ativa: estrutura interna que permita circulação controlada de soluções químicas.
A partir dessas lições, surgem etapas práticas: compreender a química do sistema, testar combinações minerais em laboratório, submeter protótipos a envelhecimento acelerado e, por fim, validar em obras reais.
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