Esse animal possui o sangue mais caro do mundo e pode desaparecer em breve
Caranguejo-ferradura tem o sangue mais valioso da medicina moderna, mas a exploração desse “ouro azul” pode levar a espécie à beira da extinção
O sangue azul do caranguejo-ferradura, extraído sobretudo na costa leste dos Estados Unidos, é um insumo caríssimo e estratégico para a indústria farmacêutica, pois dele se obtém o LAL, um reagente essencial na detecção de contaminação bacteriana em vacinas e equipamentos médicos, mas cuja coleta em larga escala gera preocupações ambientais e éticas.
Por que o sangue do caranguejo-ferradura é tão valioso?
O sangue do caranguejo-ferradura pode chegar a cerca de 60 mil dólares por galão processado, tornando-se um dos recursos biológicos mais caros do planeta. Sua cor azul vem da hemocianina, proteína rica em cobre que substitui o ferro da hemoglobina humana, mas o verdadeiro valor econômico está em um extrato específico, o LAL (lisado de amebócitos de Limulus).
Esse lisado reage com bactérias gram-negativas, como E. coli e Salmonella, formando um gel ao redor delas e servindo como um “alarme” extremamente sensível à presença de endotoxinas. Graças a essa reação rápida e precisa, o LAL tornou-se um componente central em uma cadeia produtiva global ligada à segurança de produtos de uso médico.
Como o LAL protege vacinas, remédios e dispositivos médicos?
Antes da aprovação do LAL pela FDA na década de 1970, a detecção de endotoxinas em vacinas e instrumentos médicos dependia de testes em coelhos, um processo lento, caro e que envolvia intenso uso de animais. Com o LAL, uma pequena gota passou a ser suficiente para identificar contaminação, substituindo em grande parte esses modelos animais.
Quando entra em contato com endotoxinas de bactérias gram-negativas, o LAL forma um gel que indica que o lote de vacina, soro ou dispositivo médico não é seguro para uso. Esse teste se consolidou como padrão global, reduzindo drasticamente o risco de infecções graves associadas a injeções e materiais hospitalares esterilizados de forma inadequada.
Confira o vídeo do canal Business Insider com detalhes do sangue do animal:
Quais impactos a coleta de sangue causa nos caranguejos-ferradura?
Para garantir o fornecimento de LAL, a indústria captura cerca de 600 mil caranguejos-ferradura por ano apenas nos Estados Unidos, drenando até 30% do sangue de cada animal. Estudos indicam mortalidade imediata que pode chegar a 30%, além de efeitos de fraqueza, desorientação e redução de atividade nas semanas seguintes.
Pesquisas sugerem que, mesmo entre os sobreviventes devolvidos ao mar, há prejuízos em comportamentos básicos de alimentação e reprodução, especialmente em fêmeas, o que reduz o sucesso de desova. Esses impactos individuais se somam e podem afetar populações inteiras e espécies que dependem de seus ovos, como aves migratórias costeiras.
Quais as curiosidades científicas sobre o “ouro azul” dos mares?
O caranguejo-ferradura é considerado um “fóssil vivo”, com anatomia pouco alterada há centenas de milhões de anos, o que ajudou a moldar um sistema imunológico muito eficiente contra microrganismos marinhos. Esse histórico evolutivo explica por que seu sangue é tão interessante para a biotecnologia moderna.
Alguns fatos ajudam a entender melhor a importância desse animal para a ciência e para a medicina:
O que é o LAL
O LAL não é o sangue em si, mas um extrato obtido de células específicas presentes na hemolinfa azul do caranguejo-ferradura.
Teste essencial contra endotoxinas
O teste com LAL é o padrão mundial para detectar endotoxinas em vacinas, medicamentos injetáveis e dispositivos médicos.
Um guardião invisível da imunização
Milhões de pessoas são vacinadas sem saber que a segurança desses imunizantes dependeu, em algum momento, desse animal marinho.
Alternativas sintéticas em desenvolvimento
Estudos buscam reproduzir o mecanismo de coagulação do LAL por meios sintéticos, reduzindo a exploração de animais selvagens.
Alternativas sintéticas ao LAL e riscos para a espécie?
A possível queda populacional do caranguejo-ferradura levou a IUCN a classificá-lo como “vulnerável”, com previsão de declínio de até 30% em 40 anos. Diante desse cenário, laboratórios e empresas vêm desenvolvendo alternativas sintéticas, como o rFC (fator C recombinante), inspirado no mesmo mecanismo de coagulação do LAL.
Embora algumas agências regulatórias já aceitem parcialmente esses testes, a FDA ainda exige, em muitos casos, o uso de LAL tradicional, mantendo a dependência do sangue natural. Isso alimenta o dilema: preservar a saúde humana com testes altamente confiáveis sem comprometer a conservação da espécie e o equilíbrio de ecossistemas costeiros.
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