Ela trocou o barulho da cidade pela Serra da Mantiqueira e hoje gera energia própria sem quase produzir lixo
Na Serra da Mantiqueira, uma engenheira criou um estilo de vida com energia da cachoeira, lixo reaproveitado e rotina sustentável
Ela largou o trânsito, os prédios e o vizinho barulhento para viver cercada por cachoeira, mata fechada e um lago cheio de vida. No alto da Serra da Mantiqueira, em Delfim Moreira (MG), uma engenheira eletricista transformou uma fazenda de 211 hectares em um laboratório vivo de autossuficiência, gerando a própria energia e reaproveitando quase todo o lixo.
Quem é a engenheira que mudou da cidade para a Mantiqueira?
A protagonista é uma engenheira eletricista que se apaixonou pela Serra da Mantiqueira na época da faculdade em Itajubá. Anos depois, essa conexão virou estilo de vida: há cerca de sete anos ela se mudou de vez para uma fazenda a 1.500 metros de altitude, cercada por mata preservada e clima de montanha.
O trabalho remoto permitiu que ela continuasse atuando na área de energia, participando de reuniões on-line enquanto administra a propriedade. O dia a dia combina tarefas rurais, caminhadas pela área e estudos de soluções sustentáveis aplicadas à própria fazenda.
Como funciona a fazenda que busca autossuficiência?
Dos 211 hectares, apenas cerca de 30 são usados com estruturas, pastos e áreas de manejo; o restante permanece em cobertura florestal. Ao redor da casa principal, há lago, galinheiro em reconstrução, berçários de aves e espaços para coelhos, cavalos, gansos e pavão, mantidos o mais soltos possível.
O lago, antes um buraco tomado pelo mato, foi recuperado sem veneno, abrigando hoje carpas-capim para controle da vegetação aquática, além de bagres e tilápias em teste. O espaço se tornou um pequeno ecossistema que integra lazer, manejo ambiental e produção de alimento.
Confira o vídeo do canal FALA ROCEIRO e EDUARDO PÁDUA com detalhes da casa nas montanhas autossuficiente:
Como é gerada a energia elétrica na pequena usina da cachoeira?
O grande destaque da fazenda é uma pequena central hidrelétrica off-grid na cachoeira Boa Esperança, logo atrás da casa. Um canal capta parte da água no alto da queda e a conduz por um tubo até a casa de máquinas, onde aciona o gerador antes de ser devolvida ao rio, com pouca alteração na vazão.
Construída em parceria com a Universidade Federal de Itajubá (Unifei), a usina foi dimensionada para suprir toda a demanda interna, mantendo a rede da concessionária apenas como backup. O excedente de energia tem o calor aproveitado para aquecer a piscina e a sauna, aumentando a eficiência do sistema.
Que pesquisas e aprendizados a usina e a fazenda inspiram?
A pequena usina transformou a propriedade em campo de estudo para universidades como Unifei e Unicamp, interessadas em soluções descentralizadas de energia. Nas visitas técnicas, alunos e professores analisam desde conceitos básicos até detalhes de engenharia em escala real.
Entre os principais temas estudados durante essas atividades práticas, destacam-se:
Medição de vazão
Avaliação da vazão do curso d’água e da variação ao longo do ano para identificar períodos críticos.
Cálculo da potência
Estimativa da potência disponível a partir da queda-d’água da cachoeira e da vazão medida.
Tomada d’água e canal
Dimensionamento da tomada d’água e do canal de derivação para garantir eficiência e segurança.
Equipamentos e controle
Escolha de turbinas, geradores, inversores e estratégias de controle em sistemas isolados.
Como o lixo é convertido em recurso e reduz impacto ambiental?
Desde 2017, cerca de 5 toneladas de lixo por ano deixam de ir para lixões ou aterros, graças a um sistema interno de reaproveitamento. Resíduos orgânicos viram alimento para animais ou compostagem, enquanto recicláveis são separados e encaminhados a um sucateiro local.
Restos de comida alimentam galinhas e marrecos, o excedente orgânico gera “terra preta” rica em nutrientes, e plásticos, metais e vidro são limpos para reciclagem. Apenas uma pequena fração de lixo sujo ainda é queimada, com planos de criar uma composteira específica para reduzir ainda mais esse resíduo.
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