Byung Chul Han, filósofo: “Vivemos em uma sociedade onde todos estão estressados porque sentem que não vão alcançar nada do que se propõem a fazer”
A antiga lógica do “dever” disciplinar cede lugar à ideia de desempenho permanente, expressa em mantras como “é preciso se superar todos os dias”.
O debate sobre a chamada sociedade do cansaço ganhou espaço ao descrever um mal-estar contemporâneo marcado pela autoexigência, pelo desempenho constante como critério de valor e pela transformação da liberdade em ferramenta de autoexploração, sobretudo a partir das reflexões do filósofo sul-coreano Byung-Chul Han.
O que é a sociedade do cansaço
A expressão sociedade do cansaço descreve um modelo social em que a cobrança é internalizada e o indivíduo passa a vigiar o próprio desempenho.
A antiga lógica do “dever” disciplinar cede lugar à ideia de desempenho permanente, expressa em mantras como “é preciso se superar todos os dias”.
Nesse cenário, o sujeito se enxerga como projeto e chefe de si mesmo, guiado por metas, comparações e indicadores.
O fracasso costuma ser interpretado como falha pessoal, obscurecendo fatores estruturais como desigualdade, precarização e excesso de demandas.
Byung-Chul Han sostiene la idea de que la sociedad actual ya no se rige por el materialismo histórico marxista, ni tampoco por las dinámicas de poder propuestas por Foucault, sino por algo que en alemán llama "müdigkeitsgesellschaft", la sociedad del cansancio. pic.twitter.com/mpAKfbhOKY
— Acherøn (@AcheronWyrd) August 4, 2025
Como a autoexigência alimenta o estresse e a autoexploração
Na sociedade do cansaço, o “poder fazer” se converte em obrigação contínua de aprimorar currículo, corpo, carreira e relações.
O excesso de positividade — “você pode tudo” — acaba se voltando contra o indivíduo, que se culpa por não alcançar padrões quase inalcançáveis.
Essa lógica aparece em trabalhadores sobrecarregados, estudantes sempre conectados, autônomos dependentes de visibilidade e cuidadores sem pausas.
Mesmo o tempo livre é ocupado por tarefas produtivas, configurando uma forma de autoexploração que se apoia na sensação de liberdade de escolha.
Leia também: Homem descobre uma ferrovia histórica durante obras na Inland Rail
"O excesso de estímulo e informação nos impede de viver a profundidade da experiência. A pausa é resistência. A pausa é liberdade. Sem pausa, a vida se torna mero desempenho."
— Nota (@jornalnota) February 7, 2025
Byung-Chul Han pic.twitter.com/SjgE1NJ3Sw
Quais são os principais sinais da sociedade do cansaço
O impacto desse regime de desempenho pode ser percebido em manifestações recorrentes ligadas ao corpo, às emoções e à organização do tempo.
Esses sinais ajudam a reconhecer quando o cansaço deixa de ser pontual e se torna um estado crônico de esgotamento.
- Sensação persistente de cansaço, mesmo após períodos de descanso;
- Dificuldade de desconectar de tarefas e preocupações cotidianas;
- Impressão de estar sempre atrasado em relação às próprias metas;
- Autocrítica elevada e sentimento de insuficiência constante;
- Redução do tempo dedicado a atividades sem finalidade produtiva imediata.
Como o ritmo acelerado transforma nossa relação com o tempo
Um traço marcante desse contexto é a redução do tempo contemplativo, como caminhar sem pressa ou conversar sem olhar o relógio.
Em seu lugar, predominam agendas cheias, notificações e prazos curtos, reforçando uma sensação de urgência permanente.
Plataformas digitais e redes sociais intensificam essa dinâmica, estimulando respostas imediatas e atualizações constantes.
A experiência de silêncio, pausa e concentração prolongada torna-se rara, empobrecendo a criatividade, a reflexão e o contato aprofundado com o outro.
Por que o cansaço contemporâneo é um fenômeno coletivo
Embora muitas vezes tratado como falha individual, o cansaço crônico tem raízes sociais, ligadas à valorização da alta performance, à competitividade e à precarização do trabalho.
A exaustão se repete em diferentes contextos, indicando um modo específico de organização social e tecnológica.
Encarar o problema como coletivo desloca o foco da culpa pessoal para a crítica a modelos de sucesso e produtividade.
Repensar o ritmo de vida, recuperar a importância da pausa, do ócio e de formas de convivência não subordinadas ao desempenho torna-se, assim, uma questão de interesse público.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)