Botos e pescadores pescam juntos no Sul em uma tradição rara e vira patrimônio cultural do Brasil
Conheça a pesca com botos no Sul do Brasil e os desafios para preservar essa cooperação entre pescadores e botos-de-Lahille
Entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul, no encontro entre rios e mar, a pesca com botos-de-Lahille narra a relação entre comunidades costeiras e a fauna marinha, unindo conhecimento tradicional, identidade cultural e desafios de conservação em um cenário marcado pelo recente reconhecimento como Patrimônio Cultural Imaterial e pela ameaça à sobrevivência da espécie.
O que é a pesca com botos no Sul do Brasil?
A pesca com botos é uma técnica em que pescadores artesanais e botos-de-Lahille atuam lado a lado para capturar peixes, sobretudo tainhas, em estuários do Sul do Brasil. Os animais aproximam os cardumes da margem e, por meio de sinais visuais, indicam o momento ideal para o lançamento das tarrafas.
Essa prática ocorre em áreas e épocas específicas, seguindo a migração dos peixes e rotas habituais dos botos. Alguns indivíduos são reconhecidos por nomes e traços físicos, o que reforça uma convivência prolongada e central para a identidade cultural das famílias pesqueiras locais.
Como funciona a cooperação entre pescadores e botos-de-Lahille?
A dinâmica da pesca com botos é frequentemente comparada a uma coreografia, na qual humanos e cetáceos cumprem papéis complementares. Os botos cercam os cardumes e os conduzem para águas rasas, enquanto os pescadores aguardam o “sinal verde” dado pelos animais.
Do lado humano, existe um conjunto de saberes práticos e sensoriais que sustenta essa cooperação interespécies:
Reconhecimento individual de botos
Pescadores identificam os animais por marcas, tamanho ou padrão de nado observado ao longo do tempo.
Leitura da maré e do vento
A observação da maré, do vento e da transparência da água ajuda a prever o comportamento dos peixes e dos botos.
Escolha do ponto na margem
Pescadores aguardam em locais específicos da margem onde a cooperação com os botos costuma ocorrer.
Lançamento da tarrafa no sinal
O lançamento da rede acontece no instante indicado pelo movimento do boto, aumentando as chances de captura.
Quais são as principais ameaças à pesca com botos?
Apesar do valor cultural, a pesca com botos enfrenta risco elevado devido à situação do boto-de-Lahille, classificado como “Em Perigo” em listas internacionais. A população total é estimada em poucas centenas de indivíduos, distribuídos entre o litoral sul brasileiro e áreas costeiras da Argentina e do Uruguai.
Poluição hídrica, degradação de estuários, captura acidental em redes não seletivas e ruído subaquático afetam diretamente os botos e seu comportamento. Pescadores relatam diminuição na frequência de aparição dos animais, o que reduz a eficiência da técnica e ameaça a transmissão do conhecimento às novas gerações.
Qual é a importância cultural e ecológica dessa tradição?
O reconhecimento da pesca com botos como Patrimônio Cultural Imaterial protege a prática como memória e referência identitária. O saber ecológico tradicional associado a essa pesca contribui para a gestão costeira e inspira políticas de uso sustentável dos estuários em um contexto de mudanças climáticas.
Ecologicamente, a manutenção da interação sinaliza estuários ainda funcionais, capazes de abrigar grandes mamíferos marinhos e cardumes abundantes. Por isso, a proteção da técnica está ligada à conservação do habitat, envolvendo saneamento, controle de poluição e ordenamento da atividade pesqueira.
Nas águas dos estuários do Sul do Brasil (entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul), ocorre uma das interações mais fascinantes entre humanos e vida silvestre do planeta. O Iphan acaba de reconhecer a "Pesca com Botos" como Patrimônio Cultural Imaterial do país, celebrando um… pic.twitter.com/OFGHDBaXkv
— Florestal Brasil 🌳 (@florestalbrasil) March 14, 2026
Quais ações podem apoiar a conservação da pesca com botos?
A permanência dessa prática depende da articulação entre comunidades tradicionais, pesquisadores e gestores públicos. Diversas iniciativas apontam caminhos para garantir a sobrevivência dos botos-de-Lahille e da cultura pesqueira associada.
Entre as ações propostas estão o monitoramento da população de botos, a criação de áreas de proteção ambiental em zonas estuarinas estratégicas, programas de educação ambiental voltados a pescadores e visitantes, incentivo à pesca seletiva e políticas efetivas de saneamento nas bacias hidrográficas.
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