Bactérias de 5.000 apresentam resistência a antibióticos
Em blocos de gelo formados há milhares de anos, foram encontrados microrganismos com genes ligados à resistência antimicrobiana
Pesquisas em cavernas de gelo revelaram bactérias ancestrais com genes de resistência a antibióticos modernos, mesmo sem contato prévio com esses fármacos.
Esses achados ampliam o debate sobre a origem natural da resistência antimicrobiana e seus impactos na saúde pública e no desenvolvimento de novos tratamentos.
O que revelam as bactérias preservadas em cavernas de gelo?
Em blocos de gelo formados há milhares de anos, foram encontrados microrganismos com genes ligados à resistência antimicrobiana. Esses organismos estavam preservados em condições estáveis, atuando como verdadeiros “arquivos” da evolução microbiana.
Entre eles, destaca-se uma cepa do gênero Psychrobacter, isolada em uma caverna de gelo na Romênia com camadas datadas em cerca de 5 mil anos. Mesmo tão antiga, mostrou resistência a vários antibióticos de uso corrente na medicina humana.

O que é resistência a antibióticos nessas bactérias antigas?
A resistência a antibióticos é a capacidade de bactérias sobreviverem à ação de medicamentos destinados a eliminá‑las.
No caso da cepa Psychrobacter SC65A.3, testes mostraram resistência a 10 antibióticos de diferentes classes, usados em infecções respiratórias, urinárias, intestinais e sistêmicas.
Foram avaliados 28 antibióticos e identificados mais de 100 genes associados a mecanismos de defesa, envolvendo fármacos como rifampicina, vancomicina, ciprofloxacino, trimetoprim, clindamicina e metronidazol.
Como a resistência antimicrobiana surge em ambientes isolados?
A explicação mais aceita é que a resistência antimicrobiana tem origem na própria competição entre microrganismos. Bactérias e fungos produzem compostos semelhantes a antibióticos para disputar espaço e nutrientes em solos, oceanos e cavernas, selecionando genes de defesa ao longo de milhões de anos.
Cavernas de gelo funcionam como cofres naturais, preservando microrganismos e seus genomas. Ao perfurar camadas profundas e sequenciar o DNA, cientistas reconstroem uma “linha do tempo” da resistência, observando como esses genes surgem, persistem e podem ser mobilizados entre espécies.
Essas bactérias são ameaça ou oportunidade para a medicina?
Esses microrganismos podem atuar como reservatórios de genes de resistência, com potencial de transferência para bactérias atuais por conjugação, transformação ou transdução. O derretimento de gelo e a exposição ambiental aumentam essa preocupação para a saúde humana, animal e ambiental.

Por outro lado, a mesma Psychrobacter SC65A.3 produz compostos e enzimas capazes de inibir outras bactérias, inclusive “super-resistentes”.
Seu genoma contém genes com potencial para gerar moléculas ativas contra bactérias, fungos e vírus, além de quase 600 genes de função desconhecida, que podem revelar mecanismos totalmente novos.
Quais aplicações práticas podem surgir dessas descobertas?
O estudo de bactérias antigas orienta estratégias contra a resistência bacteriana atual e estimula a conservação de ambientes extremos. A partir desses dados, pesquisadores vislumbram usos biomédicos e industriais relevantes.
Entre as possíveis aplicações estão:
- Identificação de novos compostos antimicrobianos para uso farmacêutico.
- Desenvolvimento de enzimas estáveis em baixas temperaturas para biotecnologia.
- Mapeamento da disseminação natural de genes de resistência entre espécies.
- Aprimoramento de políticas de uso racional de antibióticos com base em evidências evolutivas.
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