O carro que ninguém queria, mas hoje vale mais de R$ 600 mil
De projeto ousado a símbolo cult, o DeLorean passou por falência, escândalos e virou lenda após conquistar Hollywood
O DMC DeLorean virou lenda com “De Volta para o Futuro“, mas por trás da máquina do tempo existe um esportivo que fracassou nas vendas, sofreu com defeitos em série, envolveu dinheiro público e escândalo policial, e só depois de anos foi resgatado como ícone cultuado da cultura pop.
Quem foi John DeLorean e qual era a sua visão de carro ideal?
John Z. DeLorean, nascido em 1925 em Detroit, destacou-se na General Motors ao liderar o Pontiac GTO, um dos primeiros muscle cars voltados ao público jovem. Inconformado com a cultura interna da GM, saiu em 1973 criticando padrões de qualidade e a falta de ousadia da indústria americana.
Em 1975, fundou a DeLorean Motor Company (DMC) com a proposta de criar um esportivo “ético”, durável e seguro, mais focado em tecnologia e longevidade do que em potência bruta. A ideia era oferecer um carro diferente de tudo o que havia na época, com estilo futurista e apelo global.
Como o DMC DeLorean foi concebido e por que parecia um projeto promissor?
Para viabilizar o projeto, DeLorean obteve cerca de 400 milhões de dólares em apoio do governo britânico e ergueu, em apenas 16 meses, uma fábrica moderna na Irlanda do Norte. A instalação também tinha o objetivo político de gerar empregos em uma região marcada por conflitos e desemprego elevados.
O design ficou a cargo de Giorgetto Giugiaro, que criou um cupê de linhas retas, portas asa de gaivota e carroceria em aço inox escovado sem pintura. O chassi de espinha dorsal, desenvolvido com a Lotus, e a suspensão independente nas quatro rodas reforçavam a imagem de esportivo tecnológico para o início dos anos 1980.
Confira um vídeo do canal Carro Chefe com detalhes do veículo:
Quais limitações técnicas e de desempenho comprometeram o DeLorean?
O protótipo original previa soluções experimentais e itens avançados, como computador de bordo, que não chegaram ao carro de produção. Lançado em 1981, o modelo final pesava mais de 1.200 kg e trazia motor V6 PRV 2,85 litros com cerca de 130 cv e injeção mecânica, além de interior com ar-condicionado e comandos elétricos.
Na prática, o DeLorean acelerava de 0 a 100 km/h em mais de 10 segundos e chegava a cerca de 200 km/h, desempenho tímido frente a rivais como Corvette e Porsche 928, que eram mais rápidos e muitas vezes mais baratos. Isso criou um descompasso entre a imagem futurista e o que o carro realmente entregava nas ruas.
Quais problemas de qualidade e crises levaram à falência da DMC?
A fábrica na Irlanda do Norte contava com mão de obra pouco experiente em esportivos, resultando em muitos erros de montagem e cerca de 200 horas de retrabalho por veículo. Com o carro nas ruas, surgiram recalls de acelerador, suspensão e freios, além de relatos de desgaste precoce de pneus, portas que travavam e alternadores defeituosos.
Para entender a dimensão dos problemas que minaram a reputação e a viabilidade da DMC, vale destacar alguns pontos críticos frequentemente citados por proprietários e analistas:
Processo industrial imaturo
A falta de maturidade na linha de produção elevou custos, exigindo correções frequentes e alto volume de retrabalho.
Recalls e falhas recorrentes
Múltiplos recalls afetaram itens de segurança e confiabilidade, comprometendo a imagem e a confiança do consumidor.
Concessionárias relutantes
O temor de falência levou concessionárias a evitar honrar garantias, ampliando a insatisfação dos proprietários.
Recessão de 1981 nos EUA
A crise econômica derrubou a demanda por esportivos caros, agravando ainda mais a viabilidade comercial do projeto.
Como o DeLorean se tornou ícone pop e objeto de colecionador?
Com a crise financeira, a produção foi interrompida em 1982, após cerca de 9 mil unidades fabricadas, muitas encalhadas em pátios. No auge da turbulência, John DeLorean foi filmado pelo FBI em um esquema de tráfico de cocaína, do qual acabou absolvido em 1984 por entrapment, mas o dano à imagem já estava feito.
A virada ocorreu em 1985, quando o carro foi escolhido como máquina do tempo em “De Volta para o Futuro”, ganhando aura de nave espacial graças ao aço inox e às portas asa de gaivota. Desde então, o modelo virou peça de colecionador, com cerca de 6.500 unidades ainda em circulação e valores elevados em mercados como o Brasil, onde exemplares restaurados podem ultrapassar 600 mil reais.
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