Milei vive seu pior dia no mercado
Em dia de mercado tenso, BC argentino muda regras e queima mais 379 milhões de dólares para tentar segurar o dólar
O Banco Central da Argentina (BCRA) voltou a intervir no mercado cambial nas últimas semanas, vendendo centenas de milhões de dólares de suas reservas para conter a escalada do peso frente ao dólar.
As autoridades buscam manter o câmbio dentro da banda estipulada no acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), mas alertas de analistas apontam que o esforço pode não ser sustentável diante do nível de reservas líquidas, da fraqueza institucional gerada por reveses políticos, e do risco crescente de uma pressão cambial descontrolada.
Como revelamos ontem, a intervenção mais recente já havia realizado uma venda de cerca de 53 milhões de dólares na quarta-feira (17) ao ultrapassar o teto da banda cambial.
Ontem, houve a necessidade de uma ação ainda maior, com a queima de outros 379 milhões, para reforçar o controle do dólar oficial.
No acumulado das duas ações, o BC argentino já reduziu cerca de 432 milhões de dólares das suas reservas nas primeiras jornadas do novo esforço de contenção.
Esse uso agressivo de reservas se dá num contexto político conturbado. Milei sofreu derrotas importantes no Congresso, sua política econômica está sob observação, e o mercado começa a duvidar da capacidade do governo de sustentar o regime de bandas cambiais como âncora de credibilidade.
Além das vendas de reservas e das intervenções no câmbio, o Banco Central também eliminou o limite anual de 36 mil dólares para autônomos e exportadores de serviços, que antes precisavam liquidar os dólares acima desse montante em pesos.
Essa mudança permite que pessoas físicas recebam integralmente seus pagamentos em moeda estrangeira, sem obrigação de convertê-los, e proíbe que bancos cobrem comissões sobre essa acreditação de divisas na conta em dólares.
Por outro lado, o governo endureceu restrições específicas: gerentes bancários e seus familiares terão novas limitações para comprar divisas e títulos, numa tentativa de evitar operações especulativas internas.
Ao mesmo tempo, o governo reafirmou que não voltará a impor o cepo, um limite de compras de moeda estrangeira para pessoas físicas, nem modificará o esquema de bandas cambiais, mesmo após as próximas eleições, numa sinalização clara de compromisso com a política atual apesar da pressão política e cambial.
Uma parte importante do problema é que muitas reservas não são prontamente líquidas. Ouro, yuan ou outros ativos são de conversão mais difícil, o que reduz o colchão real disponível para enfrentar esses choques externos.
Ao mesmo tempo, vencimentos de dívida em moeda estrangeira se aproximam e devem aumentar a pressão sobre o governo para garantir fontes adicionais de divisas.
Caso não consiga reforçar as reservas, seja por meio de novos empréstimos, acordos bilaterais ou flexibilização de regras para exportadores, a capacidade de intervenção cambial ficará cada vez mais limitada.
Com isso, o peso pode enfrentar maior volatilidade, com impacto direto sobre a inflação e sobre a percepção internacional da economia argentina. Ontem o risco-país chegou a um novo recorde recente, alcançando 1453 pontos.
O desafio de Javier Milei é equilibrar sua política monetária e a gestão cambial sem comprometer a já escassa margem de manobra.
O comportamento do mercado nas próximas semanas indicará se a estratégia de intervenção pode se manter como instrumento de estabilidade ou se será o início de uma escalada rumo a escolhas mais drásticas.
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