Uma vida limitada pode ser a chave para uma vida plena?
A despeito do que nos vendem a publicidade e nos ensinam os coachs, não podemos ter tudo, fazer tudo, ser tudo
Será que viver cem vidas é melhor do que viver uma só? Em um mundo (em um momento histórico desse mundo) onde a busca por infinitas possibilidades parece ser a norma, uma outra perspectiva sugere que a chave para uma vida mais significativa – e de fato vivida – pode estar justamente na aceitação de nossas limitações. Longe de ser um convite à resignação, esse ponto de vista filosófico e prático propõe que aceitar a finitude pode nos libertar da paralisia (e do paradoxo) da escolha, direcionando-nos a experiências mais autênticas e gratificantes.
O conceito de que somos “lançados” na existência, com limites físicos e temporais claros, é uma ideia filosófica profunda, explorada por pensadores como o alemão Martin Heidegger. Essa “finitude”, como a define o autor e filósofo Oliver Burkeman, autor de Meditação para Mortais, é a realidade de nosso estado limitado e mortal. Segundo Jonny Thomson, que abordou o tema em uma de suas publicações, o trabalho de Burkeman ressalta o quão fundamentalmente humanos nós somos, encorajando a aceitação de fraquezas e dores como intrínsecas à experiência humana.
O alívio na escassez de escolhas
A era da informação e das oportunidades ilimitadas, paradoxalmente, pode levar a uma condição que o filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard descreveu como a “vertigem da liberdade”. Diante de milhares de caminhos a seguir, a mente pode ficar sobrecarregada, resultando em “análise-paralisia” e na incapacidade de agir.
É nesse contexto que Thomson fala sobre o que seria o “conforto” encontrado na restrição. Ele usa a analogia do “Armário dos Jantares Desesperados” – uma coleção de comidas enlatadas – para ilustrar como a pouca variedade de opções pode ser reconfortante e simplificadora. A decisão se torna mais fácil e o alívio de uma escolha limitada é palpável.
Oliver Burkeman, por sua vez, argumenta que a confrontação consciente das limitações, seja ao decidir como gastar a próxima meia-hora ou ao lutar com um trabalho criativo, nos imerge mais profundamente na vida. Quando se abandona a tentativa de “viver cem vidas”, ou de ser tudo para todos, há uma oportunidade de viver a própria vida com maior plenitude e comprometimento.
A mortalidade como parâmetro
Jonny Thomson argumenta que a percepção do número limitado de fins de semana em um ano o levou a uma das melhores decisões de sua vida adulta: ver menos amigos, mas com mais frequência. Essa escolha, nascida de um limite autoimposto, trouxe a ele uma nova perspectiva e felicidade.
A aceitação da finitude também se estende, principalmente se estende, à compreensão sobre a própria mortalidade. Burkeman pondera: “Acho que o que estou fazendo é mais o que chamo de finitude, o estado de ser finito. A morte está sempre meio que lá no fundo, porque, se não estivesse, poderíamos seguir qualquer caminho que pudéssemos imaginar”. Pois é. Aos poucos, ano após ano, conforme envelhecemos, vamos percebendo que não dá para seguir qualquer caminho que pudermos imaginar. E tudo bem.
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