“Um ator magro pode fazer um obeso”, diz Emilio de Mello
Ator defende que limitar papéis pela aparência do intérprete é censura; peça “A Baleia” está em cartaz em São Paulo
Na peça “A Baleia”, em cartaz no Teatro Sabesp Frei Caneca, em São Paulo, o ator Emilio de Mello interpreta um homem com obesidade severa, usando uma estrutura de espuma sob o figurino para simular o peso do personagem Charles.
A peça é adaptação do texto do dramaturgo norte-americano Samuel D. Hunter, e acompanha um professor recluso que tenta retomar o vínculo com a filha enquanto lida com culpa, luto e religião.
A solução estética reabriu uma discussão que ganhou força em 2022, quando o filme homônimo dirigido por Darren Aronofsky foi lançado: atores sem obesidade deveriam interpretar personagens obesos?
Para Mello, a resposta é direta. “Meu trabalho é fazer pessoas que eu não sou. Essa é a essência da atuação”, disse o ator à Folha.
Ele vai além e classifica como censura qualquer restrição baseada na aparência física do intérprete: “Um ator pode fazer qualquer coisa. Um homem pode fazer um personagem gay, uma atriz pode fazer uma assassina, um ator magro pode fazer um obeso. Dizer que não posso interpretar um obeso por ser magro, isso é censura”.
O debate reacendido pelo cinema
Quando “A Baleia” chegou às telas em 2022, com Brendan Fraser no papel principal, papel pelo qual ganhou o Oscar de melhor ator em 2023, parte do público questionou a decisão de recorrer a próteses e maquiagem em vez de escalar um ator com obesidade para o trabalho.
O argumento contrário ao casting aponta para uma assimetria de mercado: atores obesos têm dificuldade de acesso a papéis relevantes, enquanto intérpretes sem essa condição assumem as personagens com recursos de caracterização.
Mello reconhece a demanda por maior diversidade, mas não admite que ela se converta em exclusão.: “O importante é que todos tenham oportunidade. Não que alguém seja proibido de fazer um papel”, afirmou. Para ele, o problema está na falta de espaço para diferentes perfis, não na liberdade do ator de transitar por personagens distintos de si mesmo.
Construção física e processo em cena
O trabalho de Mello em “A Baleia” não se resume ao figurino. Com pouco tempo de preparação antes de entrar na temporada paulista, o ator recorreu a um especialista em biomecânica para estruturar a movimentação do personagem – a respiração pesada, o esforço em cada gesto, o peso simulado nos braços e nas pernas.
“Eu tenho que forjar esse peso o tempo inteiro”, explicou. “O peso dos braços, das pernas, o esforço para qualquer movimento. Se eu deixo o corpo no automático, ele não corresponde àquele corpo que estou vestindo”. O processo, segundo ele, continua aberto a cada apresentação. “O teatro nunca está pronto. Eu gosto que o espetáculo continue sendo um processo. Cada sessão é uma descoberta”.
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