Startup de US$ 1,1 bi aposta em processo seletivo sem IA
Adquirida pela Workday, a Sana Labs construiu um método de recrutamento em que o uso de IA pelos candidatos é uma desvantagem
A empresa sueca Sana Labs, especializada em softwares de treinamento corporativo com base em inteligência artificial, foi vendida à Workday por US$ 1,1 bilhão em novembro de 2024 — uma das maiores aquisições do setor de IA na Europa.
Fundada por Joel Hellermark, a companhia que vende IA para outras organizações desenvolveu um processo seletivo interno no qual recorrer a modelos de linguagem não ajuda os candidatos. Com cerca de 300 funcionários, metade contratada ao longo de 2024, a Sana registra uma taxa de rotatividade abaixo da média do setor de tecnologia europeu, estimada em 17,4%.
Processo em duas etapas
A seleção começa com uma candidatura enxuta: currículo e dados de contato. Todos os candidatos recebem retorno em até 24 horas, seja uma rejeição ou o avanço para a etapa seguinte. Segundo a chefe de operações Olivia Elf, a agilidade é parte do método. “Precisamos tornar a candidatura o mais fácil possível. São dois cliques, não dez”, afirma.
Na sequência, há uma conversa com um funcionário da empresa. A Sana não tem departamento centralizado de recrutamento: todos os colaboradores são treinados para entrevistar candidatos. Os entrevistadores aplicam o chamado framework MEH, que avalia se o postulante é movido por propósito ou por remuneração, se busca excelência e se demonstra humildade.
Quem passa por essa triagem recebe uma tarefa prática ligada à função. O trabalho é apresentado presencialmente em um dos escritórios da empresa (em Estocolmo, Nova York ou Londres).
É nessa etapa que o uso de IA perde utilidade: os candidatos precisam defender o próprio raciocínio em tempo real, sob perguntas diretas. “Somos bastante duros nas perguntas, mas com cuidado e humor. A ideia é simular como é trabalhar aqui”, diz Elf.
Curiosidade como critério
Além das etapas formais, a empresa exige um atributo que não consta em nenhum currículo: curiosidade intelectual genuína sobre inteligência artificial. Para Elf, isso vale mais do que diplomas ou histórico profissional em empresas conhecidas.
“Pessoas curiosas são curiosas para além do ego”, diz ela. “Estão sempre se reinventando, confortáveis em reconhecer suas fraquezas e trabalhando para se tornar uma versão 2.0 de si mesmas”.
A valorização desse perfil tem base em pesquisas sobre os limites dos modelos de linguagem. Estudos apontam que as ferramentas de IA auxiliam em tarefas com objetivos definidos, como revisar textos ou responder perguntas pontuais, mas reduzem o chamado pensamento divergente — a capacidade de formular ideias originais.
Para a Sana, o risco não é apenas operacional: “A IA faz coisas incríveis, mas também ameaça o pensamento crítico. Ela reduz a necessidade de olhar para dentro da própria cabeça”, afirma Elf. A empresa, fundada em 2016 por Joel Hellermark, tem entre seus clientes corporações como Spotify, Hootsuite, Strava e Robinhood.
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