Os artistas venezuelanos que fugiram do chavismo
Criadores espalhados pelo globo utilizam diferentes linguagens para investigar a memória, a política e o pertencimento diante da crise no país
A criatividade da Venezuela não está na Venezuela. Dados da organização Freemuse apontaram o agravamento do controle sobre a atividade artística sob o chavismo e a ditadura de Nicolás Maduro, deposto e sob custódia dos EUA.
O relatório indicou o uso de mecanismos de assédio e censura contra coletivos e indivíduos. No início de janeiro de 2026, informações sobre uma intervenção estrangeira e a captura de Maduro geraram instabilidade.
Entre a certeza da opressão de Maduro e a incerteza da mudança de regime, artistas como Andrés Pérez, estabelecido em Bogotá, utilizam a fotografia para questionar visões binárias da nacionalidade. Pérez examina a militarização e os padrões estéticos impostos na segunda metade do século 20.
Em Nova York, Cassandra Mayela Allen manipula tecidos e materiais descartados para construir instalações:“Busco compreender como o deslocamento se manifesta no cotidiano, focando naquilo que é retido e no que é transformado para sobreviver”, afirma Allen.
Narrativas literárias e memória do deslocamento
María Elena Morán, residente em São Paulo, aborda o esgotamento do modelo estatal em sua ficção. No livro Voltar a quando, ela explora a jornada de reconstrução pessoal em solo brasileiro. A obra é fruto de uma pesquisa acadêmica sobre escrita criativa desenvolvida no país:“Escrevi Voltar a quando avassalada por três lutos: meu pai, meu país, minha revolução”, declarou a escritora.
Outro nome da literatura, Juan Carlos Méndez Guédez, vive na Espanha e mantém vínculo com sua cidade natal, Barquisimeto. Sua produção literária foi reconhecida com prêmios de livreiros venezuelanos.
O escritor José Balza, integrante do movimento literário latino-americano da década de 1970, contribui com mais de 50 volumes publicados. Balza relaciona sua formação subjetiva ao ambiente natural do Delta do Orinoco. Ele descreve a escrita como um método de diferenciação individual em relação ao meio.
“Fui criado com frangos, porcos e outros tipos de animais. Achava que era irmão deles, que éramos uma família. Aos cinco ou seis anos, aprendi que éramos diferentes, e que eu era diferente também das árvores. Comecei a escrever para poder me diferenciar das árvores”, afirmou Balza.
Visualidades e preservação cultural
A atuação do povo Yanomami ganha espaço com Sheroanawe Hakihiiwe, que mora no estado do Amazonas. Ele traduz cosmologias e elementos da natureza em desenhos e pinturas minimalistas. Seu trabalho funciona como um inventário do patrimônio imaterial de sua comunidade. Hakihiiwe utiliza anotações sobre plantas e rituais para compor memórias gráficas da floresta.
Em Madri, a fotógrafa Suwon Lee investiga a luz e a paisagem urbana como formas de entender a essência humana. Lee considera-se parte de uma diáspora permanente, explorando a distância geográfica em suas imagens.
“A paisagem urbana pode ser contemplada e apreciada graças à distância e ao abrigo proporcionados pela natureza. A única maneira de as cidades e seus habitantes sobreviverem é se tomarem uma profunda consciência da importância de salvaguardar os recursos naturais e o meio ambiente de forma sustentável”, disse Lee.
A produção artística venezuelana também ocupa espaços em museus como o Louvre e o Guggenheim. Sol Calero participou da Bienal de Veneza de 2024 com instalações que remetem à arquitetura vernacular. Suas obras utilizam cores vibrantes para discutir a herança cultural de quem migra.
A performer Érika Ordosgoitti utiliza o próprio corpo para questionar normas morais e políticas em Chicago. “A liberdade é o meu comprometimento com a vida. É o valor mais importante que me move”, define a artista. Ela realiza intervenções em espaços urbanos para desconstruir simbologias tradicionais.
Valerie Brathwaite, radicada em Caracas, foca na materialidade da cerâmica e do bronze. “Não pretendo ter nenhuma filosofia direta para explicar meus desenhos e esculturas, nem estou comprometida com nenhum movimento artístico específico”, explicou em 1972. Seu trabalho esteve presente na Bienal do Mercosul em 2025.
Ángela Bonadies utiliza a fotografia e o audiovisual para examinar ruínas arquitetônicas. Ela analisa como promessas de modernidade foram interrompidas por ciclos políticos ligados ao petróleo. Já a poeta Esdras Parra explorou temas ligados ao sagrado e à natureza até sua morte em 2004.
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Com informações do site nonada.
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