O mistério das sete línguas antigas ainda não decifradas

10.01.2026

logo-crusoe-new
O Antagonista

O mistério das sete línguas antigas ainda não decifradas

avatar
Gustavo Nogy
5 minutos de leitura 08.01.2026 19:10 comentários
Cultura

O mistério das sete línguas antigas ainda não decifradas

Pesquisadores utilizam métodos comparativos e tecnologia para tentar ler registros de civilizações que não deixaram chaves para seus idiomas

avatar
Gustavo Nogy
5 minutos de leitura 08.01.2026 19:10 comentários 0
O mistério das sete línguas antigas ainda não decifradas
Pedra de Roseta: um pedaço de granito encontrado em 1799 perto da cidade de Roseta, no Egito, foi a chave para o entendimento dos hieróglifos.

É incrivelmente fascinante ter diante de mim um enigma intelectual tão desafiador que nem mesmo as mentes mais brilhantes conseguiram resolvê-lo”, afirma Svenja Bonmann, pesquisadora da Universidade de Colônia, que investiga a escrita epiolmeca, utilizada na costa do Golfo do México, um dos sete sistemas de escrita da antiguidade permanecem sem tradução.

Registros de civilizações como a escrita do Vale do Indo, a minoica e a epiolmeca contêm sinais gráficos que a ciência ainda não consegue converter em linguagem. A falta de documentos bilíngues e a pequena quantidade de inscrições encontradas impedem a compreensão desses códigos.

Segundo a linguista, as evidências físicas desses sistemas são reduzidas, e o contexto dos achados é impreciso: “Esses registros escritos oferecem acesso a uma cultura que desapareceu há muito tempo”, especula Bonmann.

No Paquistão e na Índia, a escrita do Vale do Indo aparece em selos e fragmentos de cerâmica com sequências curtas de sinais.

Existe um debate acadêmico sobre se esses símbolos compõem uma língua estruturada ou um sistema de sinais isolados. Na Ilha de Páscoa, a escrita rongorongo utiliza formas de aves e figuras humanas em tábuas de madeira.

A deterioração dos suportes físicos e o número limitado de artefatos dificultam a análise dos caracteres pictográficos. Na ilha de Creta, os hieróglifos locais e a escrita Linear A seguem sem interpretação, diferentemente da Linear B, já decifrada.

O Disco de Festo, também de Creta, apresenta símbolos estampados em espiral em um objeto de argila único. Por ser um artefato isolado, a aplicação de métodos sistemáticos de tradução torna-se inviável para os investigadores.

Obstáculos técnicos e falta de referenciais

A língua etrusca, da Itália antiga, possui um alfabeto legível derivado do grego, mas seu vocabulário não apresenta parentes conhecidos. O isolamento vocabular dificulta o entendimento do conteúdo das inscrições encontradas na região.

A escrita protoelamita, do antigo Irã, tem seus caracteres catalogados, mas as tabuletas remanescentes estão fragmentadas. O conteúdo desses registros parece ter finalidade administrativa, mas a língua não pertence a famílias linguísticas identificadas.

A ausência de inscrições bilíngues, como a Pedra de Roseta, constitui o maior obstáculo para a compreensão desses sistemas. Sem um texto correspondente em idioma conhecido, a tarefa de associar sinais a sons ou palavras é interrompida.

A continuidade histórica, como nomes de divindades ou locais, pode auxiliar o processo de decifração mesmo sem textos bilíngues. No entanto, a brevidade das mensagens impede o reconhecimento de padrões gramaticais necessários para validar as hipóteses.

A destruição de sítios arqueológicos e a documentação precária agravam a escassez de dados disponíveis para estudo. “Estamos sempre trabalhando com fragmentos ou pedaços do passado”, comenta Bonmann.

A disparidade na preservação de textos entre continentes também influencia os resultados das pesquisas. Enquanto a Europa detém volumes maiores de registros, a América Central possui poucos vestígios preservados após as conquistas históricas.

A falta de uma família linguística de referência remove a base para compreender estruturas de palavras e sons típicos. Sem esse contexto, os especialistas não possuem parâmetros para testar se suas interpretações estão corretas.

Limites do processamento tecnológico

O uso de inteligência artificial é testado para identificar repetições em sequências de caracteres e preencher lacunas em textos danificados. Contudo, a tecnologia depende de grandes volumes de dados para gerar análises estatísticas confiáveis.

No caso das escritas indecifradas, a quantidade de inscrições é insuficiente para o treinamento adequado dos algoritmos. Bonmann considera improvável o desenvolvimento de programas capazes de operar com bases de dados tão reduzidas.

A IA simplesmente varia certas frases e palavras, sugerindo inteligência. Mas, na realidade, trata-se apenas de uma simulação de inteligência. O programa não está realmente pensando”, explica.

Interpretações geradas por máquinas podem carecer de fundamentação científica sólida, apesar de parecerem coerentes à primeira vista. Há o risco de os sistemas reproduzirem expectativas dos pesquisadores ao sugerir parentescos linguísticos inexistentes.

A busca pela compreensão desses idiomas reflete a necessidade humana de entender a própria trajetória histórica: “Nós, humanos, somos, até onde sabemos, a única espécie com consciência histórica. Pensamos sobre de onde viemos e para onde vamos”.

O silêncio desses sistemas de escrita demonstra que partes da história permanecem – e podem permanecer para sempre – inacessíveis, mesmo com o avanço tecnológico. Algumas vozes dos passados estão mudas.

  • Mais lidas
  • Mais comentadas
  • Últimas notícias
1

Um pedido do advogado de Lulinha ao diretor da PF

Visualizar notícia
2

Moraes permite empregado doméstico na casa de Heleno durante prisão domiciliar

Visualizar notícia
3

Advogados apontam novos abusos de Moraes após ele anular sindicância do CFM

Visualizar notícia
4

Maioria do Senado assina pedido de prisão humanitária a Bolsonaro; leia a lista

Visualizar notícia
5

Crusoé: Abra o bico, Maduro!

Visualizar notícia
6

Uma Smart TV para Bolsonaro

Visualizar notícia
7

E o dever de casa, Tebet?

Visualizar notícia
8

Trump anuncia cancelamento de segunda onda de ataques na Venezuela

Visualizar notícia
9

Crusoé: A milícia digital Master

Visualizar notícia
10

Presidente do CFM deu lição à OAB?

Visualizar notícia
1

Maioria do Senado assina pedido de prisão humanitária a Bolsonaro; leia a lista

Visualizar notícia
2

Uma Smart TV para Bolsonaro

Visualizar notícia
3

Um pedido do advogado de Lulinha ao diretor da PF

Visualizar notícia
4

Presidente do CFM deu lição à OAB?

Visualizar notícia
5

Crusoé: A milícia digital Master

Visualizar notícia
6

Obrigar Bolsonaro a ler?

Visualizar notícia
7

Acordo Mercosul-UE é "passo importante para um mundo mais unido", diz Motta

Visualizar notícia
8

Moraes permite empregado doméstico na casa de Heleno durante prisão domiciliar

Visualizar notícia
9

E o dever de casa, Tebet?

Visualizar notícia
10

Vice de Tarcísio volta a chamar PT de "narcoafetivo"

Visualizar notícia
1

Horóscopo do dia: previsão para os 12 signos em 10/01/2026

Visualizar notícia
2

Regime chavista liberta só nove presos políticos do total de 811, aponta ONG

Visualizar notícia
3

BC liga quatro fundos ao crime organizado em apuração sobre o Banco Master

Visualizar notícia
4

Juristas preparam nova ofensiva contra Maduro no TPI

Visualizar notícia
5

Caso Lulinha: advogado ligado ao PT entra em ação

Visualizar notícia
6

Tio e ex-tutor de Andreas von Richthofen é encontrado morto em SP

Visualizar notícia
7

Vaticano tentou negociar saída de Maduro para a Rússia, diz jornal

Visualizar notícia
8

Nestlé recolhe lotes de produtos infantis por risco de contaminação

Visualizar notícia
9

Comissão de Ética apura conduta de Augusto Heleno em 2022

Visualizar notícia
10

Um recado de Trump ao Irã

Visualizar notícia

Tags relacionadas

ciência cultura
< Notícia Anterior

Jantar saudável: 7 receitas sem ovo ricas em proteínas

08.01.2026 00:00 4 minutos de leitura
Próxima notícia >

Homem compra casa abandonada por meio milhão e hoje ela vale 1,75 milhões

08.01.2026 00:00 4 minutos de leitura
avatar

Gustavo Nogy

Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.

Comentários (0)

Torne-se um assinante para comentar

Icone casa

Seja nosso assinante

E tenha acesso exclusivo aos nossos conteúdos

Apoie o jornalismo independente. Assine O Antagonista e a Revista Crusoé.