O mistério das sete línguas antigas ainda não decifradas
Pesquisadores utilizam métodos comparativos e tecnologia para tentar ler registros de civilizações que não deixaram chaves para seus idiomas
“É incrivelmente fascinante ter diante de mim um enigma intelectual tão desafiador que nem mesmo as mentes mais brilhantes conseguiram resolvê-lo”, afirma Svenja Bonmann, pesquisadora da Universidade de Colônia, que investiga a escrita epiolmeca, utilizada na costa do Golfo do México, um dos sete sistemas de escrita da antiguidade permanecem sem tradução.
Registros de civilizações como a escrita do Vale do Indo, a minoica e a epiolmeca contêm sinais gráficos que a ciência ainda não consegue converter em linguagem. A falta de documentos bilíngues e a pequena quantidade de inscrições encontradas impedem a compreensão desses códigos.
Segundo a linguista, as evidências físicas desses sistemas são reduzidas, e o contexto dos achados é impreciso: “Esses registros escritos oferecem acesso a uma cultura que desapareceu há muito tempo”, especula Bonmann.
No Paquistão e na Índia, a escrita do Vale do Indo aparece em selos e fragmentos de cerâmica com sequências curtas de sinais.
Existe um debate acadêmico sobre se esses símbolos compõem uma língua estruturada ou um sistema de sinais isolados. Na Ilha de Páscoa, a escrita rongorongo utiliza formas de aves e figuras humanas em tábuas de madeira.
A deterioração dos suportes físicos e o número limitado de artefatos dificultam a análise dos caracteres pictográficos. Na ilha de Creta, os hieróglifos locais e a escrita Linear A seguem sem interpretação, diferentemente da Linear B, já decifrada.
O Disco de Festo, também de Creta, apresenta símbolos estampados em espiral em um objeto de argila único. Por ser um artefato isolado, a aplicação de métodos sistemáticos de tradução torna-se inviável para os investigadores.
Obstáculos técnicos e falta de referenciais
A língua etrusca, da Itália antiga, possui um alfabeto legível derivado do grego, mas seu vocabulário não apresenta parentes conhecidos. O isolamento vocabular dificulta o entendimento do conteúdo das inscrições encontradas na região.
A escrita protoelamita, do antigo Irã, tem seus caracteres catalogados, mas as tabuletas remanescentes estão fragmentadas. O conteúdo desses registros parece ter finalidade administrativa, mas a língua não pertence a famílias linguísticas identificadas.
A ausência de inscrições bilíngues, como a Pedra de Roseta, constitui o maior obstáculo para a compreensão desses sistemas. Sem um texto correspondente em idioma conhecido, a tarefa de associar sinais a sons ou palavras é interrompida.
A continuidade histórica, como nomes de divindades ou locais, pode auxiliar o processo de decifração mesmo sem textos bilíngues. No entanto, a brevidade das mensagens impede o reconhecimento de padrões gramaticais necessários para validar as hipóteses.
A destruição de sítios arqueológicos e a documentação precária agravam a escassez de dados disponíveis para estudo. “Estamos sempre trabalhando com fragmentos ou pedaços do passado”, comenta Bonmann.
A disparidade na preservação de textos entre continentes também influencia os resultados das pesquisas. Enquanto a Europa detém volumes maiores de registros, a América Central possui poucos vestígios preservados após as conquistas históricas.
A falta de uma família linguística de referência remove a base para compreender estruturas de palavras e sons típicos. Sem esse contexto, os especialistas não possuem parâmetros para testar se suas interpretações estão corretas.
Limites do processamento tecnológico
O uso de inteligência artificial é testado para identificar repetições em sequências de caracteres e preencher lacunas em textos danificados. Contudo, a tecnologia depende de grandes volumes de dados para gerar análises estatísticas confiáveis.
No caso das escritas indecifradas, a quantidade de inscrições é insuficiente para o treinamento adequado dos algoritmos. Bonmann considera improvável o desenvolvimento de programas capazes de operar com bases de dados tão reduzidas.
“A IA simplesmente varia certas frases e palavras, sugerindo inteligência. Mas, na realidade, trata-se apenas de uma simulação de inteligência. O programa não está realmente pensando”, explica.
Interpretações geradas por máquinas podem carecer de fundamentação científica sólida, apesar de parecerem coerentes à primeira vista. Há o risco de os sistemas reproduzirem expectativas dos pesquisadores ao sugerir parentescos linguísticos inexistentes.
A busca pela compreensão desses idiomas reflete a necessidade humana de entender a própria trajetória histórica: “Nós, humanos, somos, até onde sabemos, a única espécie com consciência histórica. Pensamos sobre de onde viemos e para onde vamos”.
O silêncio desses sistemas de escrita demonstra que partes da história permanecem – e podem permanecer para sempre – inacessíveis, mesmo com o avanço tecnológico. Algumas vozes dos passados estão mudas.
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