No carnaval alemão, foliões satirizam – não adulam – políticos
Desfile em Colônia ridiculariza presidente americano e partido AfD com carros alegóricos que exploram humor político sem autocensura
O desfile de Carnaval de Colônia, Alemanha, realizado nesta segunda-feira, 16, apresenta 120 carros alegóricos com críticas diretas a líderes mundiais, instituições e movimentos ideológicos. Entre os alvos principais estão o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o partido Alternativa para a Alemanha (AfD), considerado de extrema-direita. Mas sobra pra todo mundo.
A procissão debochada mantém a tradição dos “Persiflagewagen”, carros satíricos que combinam arte com comentário político. Marc Michelske, diretor do desfile, coordena a criação dessas peças junto a uma equipe responsável por transformar temas polêmicos em representações visuais controversas.
Espelho reflete bajulação a Trump
Um dos carros mostra Trump diante de um espelho, sorrindo, com as nádegas expostas e cobertas por marcas de batom. Os beijos estampam nomes de autoridades e instituições como União Europeia, Fifa, ONU, o chanceler alemão Friedrich Merz e o presidente francês Emmanuel Macron.
“Nos perguntamos por que tantas pessoas se curvam diante de Donald Trump, e o próprio Trump disse: ‘Eles estão beijando minha bunda’”, explicou Michelske à DW. A alegoria faz referência à expressão em inglês que significa bajulação.
O diretor justifica a abordagem pela conduta do presidente americano. “Trump sempre golpeia abaixo da cintura, como faz com todas as questões. É algo muito baixo, especialmente para um presidente dos Estados Unidos, e esta foi a melhor forma que encontramos de representá-lo”, afirmou.
Serpente simboliza estratégia da AfD
Outro carro retrata uma cobra azul-clara – cor oficial da AfD – enrolada em um jovem. A imagem usa a personagem Kaa, do Livro da Selva, para representar o que Michelske considera uma manipulação hipnótica do eleitorado pelo partido de ultradireita.
“Kaa tentou envolver o menino Mogli e hipnotizá-lo, e vemos isso acontecendo exatamente agora”, observou o diretor.
Ele defende o diálogo com eleitores da AfD. “Mas é preciso conversar com essas pessoas, não apenas denunciá-las. Mogli também não conseguiu sozinho. Temos que ajudar as pessoas a sair dessa hipnose; só assim poderemos enfrentar o problema. É disso que se trata a democracia”.
Temas variados tratam das tensões globais
O desfile inclui outras alegorias sobre questões contemporâneas. Um carro exibe um adolescente com celular usando capacete militar desproporcional, em crítica à proposta de restabelecer o serviço militar obrigatório no país.
Uma guilhotina ensanguentada traz as palavras “tarifas dos EUA” e uma bandeira americana no lugar da lâmina. Outra peça mostra um coelho rotulado “UE” carregando pesos sob vigilância de uma águia (EUA), um urso (Rússia) e um panda (China), com mensagem sobre a sobrevivência europeia sem dependência das potências.
Solidariedade e liberdade de expressão
Vladimir Putin não aparece nos carros de Colônia este ano. Michelske esclarece que a ausência não resulta de medo, mas de divisão de temas com Düsseldorf, onde o construtor Jacques Tilly enfrenta processo movido pela Rússia por suas sátiras ao líder russo.
“Estamos definitivamente solidários com ele; os foliões têm de ser livres”, disse Michelske. Ele acredita que Tilly responderá aos ataques com novo carro este ano.
As associações carnavalescas de Mainz também manifestaram apoio: “Não seremos intimidados nem privados do nosso humor. A crítica carnavalesca não conhece limites e não pode ser banida”.
O Comitê do Festival de Colônia divulga seus carros antes do evento, diferentemente de Düsseldorf, que mantém segredo até o dia do desfile. “Não é um segredo; as coisas devem ser mostradas e explicadas ao público”, defende Michelske. “Isso nos dá a oportunidade de falar sobre o que associamos a cada carro”.
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