Estudo aponta música como ferramenta para melhorar aprendizado infantil
Pesquisa realizada com base em dados de 5 mil estudantes norte-americanos revela que o aprendizado de instrumentos pode atenuar a lacuna de aprendizado em áreas desfavorecidas
Crianças que aprendem a tocar instrumentos musicais por vários anos apresentam ganhos de vocabulário superiores em comparação àquelas que não estudam música. Uma análise de dados de desenvolvimento infantil indica que o treinamento musical serve como uma proteção contra desvantagens acadêmicas vinculadas ao baixo nível socioeconômico. Os achados foram publicados nos Annals of the New York Academy of Sciences e divulgados pelo PsyPost.
Assal Habibi, professora de psicologia na Universidade do Sul da Califórnia, liderou a investigação no Brain and Creativity Institute. O objetivo era verificar se os benefícios cognitivos da música permanecem constantes ao longo do tempo. A equipe queria entender se essa prática atuaria como um equalizador para jovens que enfrentam adversidades econômicas.
O grupo utilizou informações do Estudo de Desenvolvimento Cognitivo do Cérebro Adolescente (ABCD), a maior pesquisa de longo prazo sobre saúde e cérebro infantil nos Estados Unidos. O banco de dados acompanha milhares de indivíduos durante a transição para a adolescência. Essa escala permite que os cientistas controlem variáveis que estudos menores ignoram.
A amostra analisada incluiu mais de 5 mil crianças com idades entre 9 e 10 anos no início da coleta de dados. Os participantes foram classificados conforme suas atividades extracurriculares. O foco principal foi a comparação entre músicos, definidos como praticantes contínuos por dois anos, e não músicos.
Impactos no desenvolvimento cognitivo e linguístico
Os pesquisadores submeteram os estudantes a testes de funções executivas e competências de linguagem. As tarefas avaliaram memória de trabalho, controle inibitório e vocabulário. No Picture Vocabulary Test, por exemplo, os participantes associavam palavras faladas a imagens correspondentes.
A análise inicial mostrou que os músicos superavam os demais em quase todas as medidas cognitivas no começo do estudo. Eles registraram índices maiores em reconhecimento de leitura, memória e velocidade de processamento. Essa diferença de base é comum em pesquisas do gênero.
Para aprofundar a análise, a equipe observou as mudanças ocorridas no período de dois anos. Embora todos os indivíduos tenham apresentado melhoras naturais devido ao amadurecimento, os músicos exibiram um crescimento acelerado em áreas específicas. A evolução mais nítida ocorreu na tarefa de vocabulário de imagens.
Os dados revelaram que a distância nas habilidades de linguagem entre os grupos aumentou conforme o tempo de estudo avançava. Em seguida, a pesquisa utilizou o Índice de Privação de Área para avaliar a qualidade socioeconômica das vizinhanças dos participantes. Esse índice considera fatores como renda, educação e moradia.
Efeito protetivo em ambientes de vulnerabilidade
Os resultados apontaram uma interação entre a prática da música e o nível de pobreza do bairro em que as crianças moravam. Entre as que não tocavam instrumentos, aquelas residentes em locais desfavorecidos mostraram melhoras reduzidas no vocabulário. Esse dado reflete a disparidade de aproveitamento comum em pesquisas educacionais.
O padrão foi distinto entre os praticantes de instrumentos. As crianças desse grupo demonstraram a mesma taxa de evolução no vocabulário, independentemente da renda da vizinhança. O treinamento musical pareceu resguardar os estudantes de áreas pobres contra a lentidão no progresso observada em seus vizinhos.
Técnicas de aprendizado de máquina validaram as conclusões estatísticas. Um algoritmo de máquina de vetores de suporte foi utilizado para classificar os dados. O computador identificou corretamente quem era músico baseando-se apenas nos resultados dos testes cognitivos, priorizando as pontuações de linguagem.
O modelo também diferenciou músicos de jogadores de futebol, embora ambos os grupos costumem ter mais recursos familiares. O sistema eletrônico priorizou o desempenho em tarefas de leitura e vocabulário para reconhecer os músicos. Isso indica que a música possui uma relação específica com a linguagem.
A hipótese sugere que a precisão neural necessária para a música melhora o processamento da fala no cérebro. Ambas as atividades dependem da interpretação de sequências de sons complexos. Essa base biológica compartilhada explica por que os efeitos são visíveis na leitura e no vocabulário.
O título do artigo original é “Longitudinal Effects of Continuous Music Training on Cognitive Development: Evidence From the Adolescent Brain Cognitive Development (ABCD) Study”. A pesquisa foi assinada por Assal Habibi, Eustace Hsu, Jed Villanueva e Shan Luo. Novos estudos devem analisar se diferentes instrumentos geram impactos distintos no cérebro.
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