Desenhos do espião que documentou Dachau vão a leilão em NY
Quatro ilustrações produzidas pelo agente britânico Brian Stonehouse após a liberação do campo nazista serão ofertadas por mais de US$ 100 mil
A galeria Abbott and Holder disponibiliza para venda, em uma feira de arte em Nova York, desenhos originais que documentam o cotidiano do campo de concentração de Dachau. As obras, criadas pelo artista e espião britânico Brian Stonehouse, em 1945, têm preço inicial fixado em US$ 100 mil. O conjunto inclui registros de câmaras de gás e crematórios feitos logo após a chegada das tropas aliadas ao local.
Stonehouse integrou o Executivo de Operações Especiais (SOE) durante a guerra. Ele atuava na França sob o disfarce de estudante de artes visuais enquanto operava um rádio transmissor escondido em seu material de pintura. Sua captura ocorreu em 1942 por forças da polícia de regime de Vichy e da Gestapo.
Durante o período em que esteve detido, o britânico passou por diferentes campos, incluindo Mauthausen e Struthof-Natzweiler. Ele utilizou sua técnica artística para produzir retratos de funcionários das unidades prisionais e de seus parentes. Essa atividade permitia o acesso a benefícios e a interrupção temporária de trabalhos forçados.
Documentação pós-libertação
Em 30 de abril de 1945, um dia após a entrada das forças dos Estados Unidos em Dachau, Stonehouse iniciou a produção dos desenhos. O material utilizado consistia em carvão sobre papel para fixar cenas do necrotério e das pilhas de corpos. O ambiente ainda apresentava riscos devido à presença de minas terrestres deixadas pelo exército alemão em retirada.
A curadora-chefe de aquisições do Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos, Kyra Schuster, comentou o teor das peças. “É impossível não se emocionar com essas imagens”, declarou em entrevista. A especialista observou as condições de produção e preservação dos itens históricos em um ambiente de repressão.
“Eles desenhavam em pedaços de papel ou em materiais que conseguiam contrabandear. O que mais impressiona é que não apenas conseguiram produzir essas obras, como também mantê-las escondidas – muitas vezes correndo grande risco”. As quatro imagens que sobreviveram ao tempo serão expostas ao público antes da comercialização.
Trajetória militar e carreira civil
Com o encerramento das hostilidades, o governo britânico concedeu a Stonehouse a distinção de Membro da Ordem do Império Britânico. Ele retornou ao território alemão para colaborar na identificação de oficiais nazistas em interrogatórios ligados aos tribunais de guerra. Dwight D. Eisenhower classificou o percurso do artista como uma das experiências mais fora do comum da guerra.
A vida do ex-agente seguiu novos rumos nos Estados Unidos, onde ele se fixou em Nova York. Em 1952, a revista Vogue o contratou como ilustrador, sendo o primeiro profissional da área admitido pela publicação após o término do conflito. Ele também prestou serviços para lojas de departamento e marcas do mercado de luxo.
Os desenhos de Dachau permaneceram no ateliê do artista por décadas até serem vendidos a um colecionador na década de 1980. Posteriormente, o diretor da Abbott and Holder, Tom Edwards, adquiriu as peças que agora chegam ao mercado. A venda pública das ilustrações ocorre a partir de 30 de janeiro. Brian Stonehouse faleceu em Londres no ano de 1998, aos 80 anos de idade.
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