Cineastas brasileiros criticam fala de Wenders no Festival de Berlim
Diretores Karim Aïnouz e Eliza Capai contestam declaração do presidente do júri da Berlinale, que afirmou que cinema é “o oposto da política”
A declaração do cineasta Wim Wenders, presidente do júri do Festival de Berlim, de que cineastas são “o oposto da política”, provocou reações entre diretores brasileiros presentes. Karim Aïnouz, que compete ao Urso de Ouro com Rosebush Pruning, e Eliza Capai, responsável pelo documentário A Fabulosa Máquina do Tempo, se disseram surpresos com a posição do diretor alemão.
Aïnouz considera a afirmação de Wenders equivocada. O diretor cearense, que mora em Berlim, aponta contradições no discurso do próprio cineasta alemão. Segundo ele, Wenders produz um cinema que questiona estruturas de poder e transforma a realidade.
Paris, Texas, um dos trabalhos mais conhecidos de Wenders, é citado por Aïnouz como exemplo de filme que examina relações entre homem e mulher a partir de uma perspectiva íntima, mas que discute um estado de coisas mais amplo. O brasileiro menciona ainda O Estado das Coisas, de 1982, outro título do diretor alemão.
O cineasta brasileiro relata que sua decisão de trabalhar com cinema foi influenciada pela leitura de “A Obra de Arte na Era de Sua Reprodutibilidade Técnica”, de Walter Benjamin, ensaio que trata do potencial político e transformador da sétima arte.
“Para mim, fazer cinema sempre foi um ato político. Um ato que, de fato, eu tento questionar, criticar, provocar um estado de coisas que eu acho que não está justo”, afirmou Aïnouz à Folha.
Escolhas artísticas como posicionamento
Eliza Capai, que concorre ao prêmio de melhor documentário, partilha da mesma visão. Seu filme acompanha estudantes de uma escola no interior do Piauí, a primeira geração totalmente inserida no programa Bolsa Família. As meninas discutem o papel da mulher em uma sociedade marcada pelo machismo.
“Fazer cinema é fazer política. Qualquer decisão, qual é o tema que eu vou gravar? Onde eu vou filmar? O que cada personagem vai falar no caso de uma ficção? Quem eu vou escolher para o meu documentário? Tudo isso é político”, declara a diretora.
Capai rejeita a ideia de neutralidade. Para ela, todas as pessoas são seres políticos, conscientes ou não dessa condição. A diretora não vê problema em ser identificada como ativista e define seu trabalho como uma busca por justiça social.
Defesa da organização
A organização da Berlinale publicou uma carta no fim de semana em apoio a Wenders e aos demais jurados. O documento defende que artistas não têm obrigação de se manifestar sobre todos os assuntos de caráter político que lhes são apresentados.
Tricia Tuttle, diretora do evento, reforçou que “os artistas são livres para exercer seu direito à liberdade de expressão da maneira que escolherem”. A nota acrescenta que os participantes não deveriam responder por ações passadas ou presentes do festival diante do que chamou de “estrondo da mídia”.
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