AC/DC: antes de “curtir”, depois de “curtir”
Apesar das controvérsias, o ícone do polegar continua sendo uma ferramenta popular
Desde sua introdução nas redes sociais, o botão “curtir” transformou radicalmente a maneira como interagimos online.
Ícones como o polegar para cima, o coraçãozinho e as várias expressões de alegria, tristeza, satisfação, tédio, raiva ou ironia, tornaram-se universais, moldando comportamentos, incentivando engajamento e estabelecendo métricas de popularidade.
Mas esse vocabulário semiótico aparentemente inofensivo passou a ser alvo de atenção e críticas por seu impacto psicológico e social, menos amistoso do que seria à primeira vista.
Em seu livro Super Sad True Love Story, publicado antes de o Facebook adicionar o botão “curtir”, Gary Shteyngart, escritor russo que vive nos EUA desde a infância, imagina um futuro onde as interações são rastreadas através de “aparelhos” que as pessoas seguram nas mãos.
Hmmm.
O romance de Shteyngart provavelmente serviu de inspiração para o episódio “Nosedive”, da série Black Mirror.
Assim como no livro, a história se passa num futuro distópico (convenhamos: nem tão futuro assim…) fortemente influenciado pelos rankings em redes sociais, onde todos se comportam de forma calculada, visando aumentar suas pontuações sociais (alguém se identifica?).
É divertido, mas pode fazer mal para a cabeça – e para a comunicação
Especialistas ponderam – e nem precisaríamos dos especialistas para admitir, por experiência própria… – que o botão “curtir” pode gerar dependência, dar margem a comparações prejudiciais e afetar a (muito) autoestima, especialmente entre crianças (que têm acesso às redes cada vez mais cedo) e jovens. Há quem defenda a reformulação ou até extinção do botão, enquanto outros o enxergam como essencial para a dinâmica (monetária) das redes.
O Instagram, por exemplo, já experimentou esconder o número de curtidas para minimizar esses efeitos.
O YouTube tentou fazer algo diferente: reformulou a visibilidade do botão “não curtir” para proteger criadores de conteúdo. A audiência pode clicar, mas não saberemos o quanto o vídeo foi “não curtido”. Essa medida simples, em tese, tornaria menos contagioso o linchamento virtual.
Variedade – e achatamento – das emoções
No começo, até que parecia uma boa ideia.
Com um clique, o usuário pode expressar uma variedade de respostas emocionais, prestigiar conteúdo bom, reprovar conteúdo ruim, afirmar sua identidade, criar laços, divulgar opiniões, ser um comportado “cidadão” digital.
Sabemos bem o que isso virou.
Mais do que uma funcionalidade, o que está em discussão é futuro das relações humanas (exagero? Não é não), que são cada vez mais construídas, intermediadas e destruídas no mundo virtual. E o mundo virtual, por sua vez, está cada vez mais parecido com o mundo – sem adjetivos.
Gary Shteyn… o quê?
Antes que eu me esqueça, alguns livros do escritor Gary Shteyngart estão publicados no Brasil.
O mencionado Uma história de amor real e supertriste conta a história de Lenny Abramov, um russo-americano de 39 anos obcecado livros, a ideia de ter uma vida eterna e uma garota coreano-americana chamada Eunice Park. Absurdistão vai fazer rir os anticomunistas. Lake Success vai fazer rir os comunistas. Mas a quem quiser se arriscar eu indico Fracassinho, autobiografia de Shteyngart, em que conta a história de sua infância na Rússia e sua chegada, adolescência e vida nos EUA. É hilário.
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Comentários (1)
Carlos Renato Cardoso Da Costa
29.04.2025 17:26Tenho uma dificuldade enorme de aceitar qualquer tipo de moderação de redes sociais e de seus mecanismos porque não consigo compreender como alguém pode se abalar ou entusiasmar com um dislike ou like. Sei que é já cientificamente comprovado, mas admito que é uma realidade que não me entra na cabeça